Preçário?!

Você já foi a algum estabelecimento em que só havia o cardápio dos itens sem o preço identificado e necessitou perguntar  a alguém o valor do que desejava?

No Brasil e no mundo, é extremamente comum  muitas lojas e restaurantes não identificarem os preços de seus itens.

Diversas vezes eu já fui a restaurantes em que, no cardápio, só havia a descrição dos pratos, e então sempre pedia ao garçom “ Você pode me trazer o cardápio de preços, por favor?” Ou ainda ia a alguma loja em que na vitrine só as peças estavam expostas e quando perguntava a vendedora, ela falava que ia pegar o “catálago de preços”.

Em uma viagem recente à Portugal, fui a uma lanchonete e percebi que no cardápio também só existia a descrição dos pratos. Assim, perguntei à garçonete se ela podia me trazer o cardápio de preços. No início houve um pequeno ruído de comunicação, pois ela não entendeu o que eu queria dizer, pois insistia que o único cardápio que tinha já estava em minhas mãos. Depois de explicá-la ela me disse: “Ah, tú “queres” saber do preçário? Está alí” E me apontou para o preçário fixado na parede, onde estavam todos os preços das comidas. Comecei a pensar nessa palavra e porque no Brasil  não a utilizávamos. Achei muito interessante o uso dessa palavra, que até então eu desconhecia. Em uma única palavra o que eu queria perguntar estava sintetizado. Logo em seguida fui procurar no dicionário para ver se ela realmente existia, pois duvidava de sua legitimidade. Eis que me deparei com sua existência e seu  significado, segundo o dicionário Houaiss:

Substantivo masculino

Regionalismo: Portugal.

Lista de preços.

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Depois de toda essa reflexão e de perceber que essa palavra existe mesmo no português, ainda me questiono porque no Brasil quase ninguém a utiliza, sendo que é um jeito bem criativo de definir um “catálago de preços”.

Se nós seres humanos preferimos sempre economizar letras palavras em nossa fala, como por exemplo: “tava” ao invés de “estava” porque não utilizamos “preçário” ao invés de “catálago” ou cardápio de preços”? Essa é uma pergunta que permanence em minha cabeça e que provavelmente estudarei mais a respeito no futuro.

Em suma, com toda essa experiência, pude notar ainda mais claramente como um intercâmbio cultural com um país que também fala português pode ser importante para o nosso conhecimento e a ampliação de nosso saber e de nosso vocabulário, já que existem muitas discrepâncias em nossa língua dependendo da região em que se fala. Muitas diferenças existem e é extremamente importante e interessante conhecê-las. Agora  que você já conhece mais uma palavra, tente usá-la em seu dia-a-dia e nos diga: será que os brasileiros poderão compreendê-la ?

Não há ambiguidade?

Outro dia, na rede social, uma professora do Band compartilhou, em sua página, esta tirinha do Armandinho:

vendo por do sol
https://www.facebook.com/tirasarmandinho?fref=ts

O interessante é que, assim que a tira foi publicada, um ex-aluno, o qual concluiu a 3.a série em 2012, comentou: “Acho que uma das suas amigas, Karla ou Cátia, vai inventar de colocar isso na prova e perguntar ‘no que consiste a ambiguidade’…”! Mas será que há ambiguidade na tira? Vejamos.

No primeiro quadrinho, a pergunta feita a Armandinho sugere um sentido para a frase na placa que ele carrega: o termo “vendo” seria a forma da primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “vender”. Entretanto, no segundo quadrinho, o garoto deixa claro que estava apenas admirando a beleza do fenômeno natural, portanto “vendo” passa a ser entendido como a forma nominal de gerúndio do verbo “ver”.

Desse modo, não se pode afirmar que haja ambiguidade, já que os dois possíveis sentidos atribuídos à frase na placa que o Armandinho carrega não se sustentam, não valem ao mesmo tempo. Quando ele revela a mensagem que teve a intenção de transmitir, o sentido de “Vendo pôr-do-sol”, sugerido pela fala do adulto no primeiro quadrinho, é eliminado. Percebe-se que o cartunista explorou formas coincidentes de verbos distintos para criar uma situação na tira, em que a falta de entendimento entre as personagens causa humor, ou seja, é engraçada.

A personagem Armandinho foi criada pelo agrônomo e publicitário Alexandre Beck, de 40 anos, numa evidente recriação de outro garotinho, o Calvin, de Bill Watterson. Essa versão tupiniquim lembra um pouco também a argentina Mafalda, do cartunista Quino.

Não há como não simpatizar com Armandinho. Não há como não apreciar o uso criativo que o cartunista Alexandre Beck faz da língua portuguesa.

Para saber mais sobre a personagem e seu autor, acesse o link:

http://oglobo.globo.com/megazine/contestador-armandinho-ganha-fama-no-facebook-8027174

“Poesia é o belo trabalhado” Manoel de Barros

Hoje eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze. Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na fazenda, contando que eu já decidira o que queria ser no futuro. Que eu não queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de fazer casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador. Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a cabeça. Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa? Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu: Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não botou enxada.
“Fraseador”, Manoel de Barros – in Memórias inventadas

Fraseador pode até não botar tanto mantimento em casa, mas alimenta a alma de muita gente!

Para conhecer mais sobre Manoel de Barros, 1h21 de puro deleite poético: