Bandeirantes recebe escritor Pepetela com biblioteca lotada

Arthur Carlos Maurício Pestana dos Santos, mais conhecido por Pepetela, é um notório escritor angolano de romances, peças e crônicas desde a década de 70. Pepetela é grande responsável pela divulgação da literatura africana de língua portuguesa para o mundo.pepetela1

Em sua última passagem pelo Brasil, os alunos do Band tiveram a oportunidade de participar de um bem-humorado bate papo com o autor da obra recém incorporada pela lista obrigatória da FUVEST, o livro “Mayombe”.

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Dono de uma personalidade ímpar, o escritor conversou com os estudantes sobre o histórico de problemas políticos e étnicos que Angola enfrenta há diversas décadas. Além disso, também comentou diversos aspectos da composição da obra “Mayombe”, escrita enquanto ele participava ativamente da guerrilha descrita no livro.

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“Foi muito gratificante ver a reação de todos depois da palestra. Estudantes tanto do primeiro quanto terceiro ano, que já tinham lido o livro, transpareceram a emoção singular de ter o autor de ‘Mayombe’ em um bate papo tão descontraído. Por fim, alguns dos alunos do segundo ano mostraram-se imensamente interessados pela história e decidiram antecipar a leitura da obra ”, finalizou a Coordenadora de Língua Portuguesa, Susana Vaz Húngaro.

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Concurso Fernando Pessoa 2014 – Textos vencedores

O Palavrarte presenteia Fernando Pessoa, que hoje faria 126 anos, com os textos vencedores do “Concurso Fernando Pessoa  2014”. Parabéns ao poeta e aos alunos, também poetas!

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Imagem: https://www.facebook.com/Letrasinverso?fref=ts

 

 

1º lugar: “É Pessoas” – Lucas Nakamura – 3H2

–Observa com cuidado o que passa para o papel e tem cuidado para não passar mais do que aquilo que observa.

Tem paciência – o mestre. Paciência para ensinar o inapreensível. Paciência para professar a filosofia da não filosofia. A poesia sem a poética. E professa. É sábio – o mestre. Sábio que sabe exatamente o que precisa saber. Nada mais. Ou nada mesmo? É – o mestre. É aquilo que todos tentam ser. Sem tentar, é aberto, simples, harmônico, certeiro. Caeiro.

–Que de mim seja um poeta feito, mestre. Que já chega o fim de minha história. E chega. E que seja com poesia.

É devoto – o antigo. Devoto ao antigo, quase que cego, se vira e vê o passado. Devoto ao certo, que é certo, e não há como errá-lo. Devoto às letras, que derrama sem pensar. É antigo. Antigo de mente e de alma. Antigo que mente e que ama. Antigo que, devoto à Antiguidade, não se deixa esquecer do passado. Nostálgico, coroa o clássico e segue à risca suas leis. Reis.

 

–Socorro, mestre! Socorro! Que me matam suas palavras! Do que serve que me mandes esvaziar minha mente, se esta já está vazia? Não sobra mais nada que me salve do nada que sou! Socorro, mestre! Socorro! Que me matam as palavras!

É ansioso – o pobre humano. Ansioso pelo novo, pela frente, por tudo aquilo que não conhece e que não sabe. Por tudo. É ansioso, e essa ânsia sem amparo que angustia não anda. Para. É ansioso e sofre. E dói. Sufoca. É pobre, o humano. Pobre que sofre por ser humano. É humano e sofre na pobreza do que é. É nada – o poeta. É, entre prantos. Campos.

 E é mais, muito mais, tudo que possa ser. É um, é vários, é mil. É tudo, diferente, mas é o mesmo. É infinitas vezes reles, infinitas vezes porco, infinitas vezes vil, paciente, sábio, devoto, pobre, humano, fingidor, sensível, artista. Poeta. E dentro de cada um de todos esses, dentro de todas essas Pessoas, só existe um. Escrevendo, sentindo, amando. Fernando.

 2º lugar: “Outra versão de Lídia, a musa” – Gabriel Marques – 3H1

 Lídia chegara em casa em uma manhã de sábado, estava cansada por causa da noite anterior, quando, ainda meio perdida em seus pensamentos mais internos, deparou-se com um bilhete que seu marido deixara em cima da mesa. A mensagem era clara apesar do vocabulário erudito, próprio de Ricardo Reis. Nele, o neoclássico despejava sua mágoa sobre a mulher:

 “Lídia, demorastes para chegar em casa, não? Informaram-me, finalmente, sobre seu adultério com Álvaro de Campos, ocorrido há dois meses. Ademais, viram-te ontem com Alberto Caeiro à beira do rio em que nos conhecemos. Satisfizera-te? Estás feliz com tua decisão? De qualquer maneira, eu te disse que o correto, ou melhor, o mais plausível seria que não nos relacionássemos. Mas, tu insistiras. Naquele dia, à beira do rio, quando te convidei para pensar, tu aproveitaste do meu corpo de Hércules e rompeste meu equilíbrio interno. Eu me apaixonara. Lídia, Perséfone dos tempos modernos, traíste-me assim como a mulher de Hades costumava traí-lo. Consoante o que já previ à beira do rio, tu quebraste minha harmonia e, por isso, saí de casa. Não sei se retorno. Aproveite bem tuas aventuras porque a vida é efêmera, minha amada.
Adeus,
Ricardo Reis”

Lídia continuava serena como sempre fora, mesmo depois de ler o bilhete. Fora tomar banho e o largou ali mesmo. Enquanto se banhava, pensava no que acabara de ler: a mensagem que lhe fizera lembrar-se de uma noite de quinta de dois meses atrás. Ela se lembrava dos toques exaltados de Álvaro de Campos naquele espaço fabril. Como fora bom sua aventura por entre as máquinas. Aquele barulho contínuo, os holofotes acesos e o brilho metálico, tudo que Álvaro enaltecia deixava a situação cada vez mais prazerosa. Mas, o prazer, como tudo na vida, fora efêmero. Logo após o ápice, uma tensão se espalhou pelo ar. Álvaro acabara de perceber, ao olhar a aliança no dedo da moça, que cometera adultério. Isso lhe deixou em crise. Além da decepção consigo mesmo, Álvaro ficava cada vez mais angustiado. Os textos de exaltação que costumava escrever tornaram-se, em questão de semanas, textos com um aspecto pessimista. Ele tornara-se pessimista, questionando sempre sua existência e duvidando de seu papel na sociedade. Ela fora um grande mal para ele. No entanto, ele fora um de seus maiores prazeres.

Lídia, de volta ao mundo concreto, saíra do banho, comera alguma coisa e depois se deitou. Deitada, voltara a pensar no que pensava antes de ler o bilhete: a noite anterior, noite de sexta. Encontrara-se com Alberto Caeiro, próximo ao rio onde ela seduzira Ricardo, com o pretexto de observar a natureza. Contudo, o desfecho foi uma cena intensamente sensual. Como, para ele, pensar era uma doença, não haveria arrependimentos. Alberto aproveitou o momento através de todas as sensações possíveis. O cheiro de terra molhada à beira do rio despertava seu olfato; o “olho no olho” lhe deixava mais empolgado; os sons que saíam da linda boca da moça lhe davam prazer; o beijo, delicadamente selvagem, deixava-lhe um sabor gostoso nos lábios; e, por fim, o roçar dos corpos lhe causava uma sensação de êxtase. Todavia, depois do clímax, quando ela descansava em seus braços, ouviram passos de alguém se aproximando. Vestiram-se rapidamente. Alberto se retirou, depois de uma indelicada despedida. No entanto, Lídia decidiu esperar, pensava que tudo aquilo ali podia ser interessante. Deparou-se com um homem mascarado, mal dava para ver seus olhos. Ainda sim, ela sentiu algo ao trocar olhares com o moço. Depois de algum tempo ali parada, decidiu correr. Fora embora.

Lídia, fugindo um pouco do mundo subconsciente de suas lembranças, apagara o abajur localizado no criado-mudo ao lado de sua cama e, logo em seguida, adormeceu. Sonhava com alguém que não era nem Ricardo, nem Alberto, nem Álvaro. Era o mascarado. No sonho, ela o via escrever poemas. Escrevia chorando. Ele parecia romântico, parecia sentir. O quarto estava escuro, mas ele sentiu a presença de Lídia. Levantou-se abruptamente, ainda escondendo o rosto, pegou-a pela cintura e começou a despi-la. Gostava de senti-la, assim como Alberto Caeiro. Ao mesmo tempo, sussurrava nos ouvidos da musa frases sensualmente sofisticadas, do mesmo modo que Ricardo Reis costumava fazer. No entanto, no meio das sensações, sua consciência pesava. Ele era pensante como Álvaro de Campos e estava tão angustiado quanto. Lídia amava tudo isso. Sentia um prazer imenso. Afinal, ele tinha todas as características que ela gostava nos seus dois amantes e no seu marido. Nesse momento, as máscaras dele mudavam. Ora ele era um, ora era outro. Às vezes, os três!

Já estava tudo muito confuso até que o despertador tocou. Lídia acordara feliz. Ela sorria. Amava-se e amava o homem encantador de seu sonho. Banhou-se e arrumou-se para trabalhar. Pegou o bilhete que deixara na mesa, amassou e jogou fora. Pegou um pouco de vinho e tomou. Comeu um pão e saiu. Saiu pensando no sonho. Na pessoa. Sem saber, em Fernando. Fernando Pessoa.

3º lugar: “Qual Pessoa virá?” – Ana Luísa Braga / Joany D’Ávila – 3B1 –  e “Pessoa Fernando” – Guilherme Tavares – 3E1

“Qual Pessoa Virá?” – Ana Luísa Braga /

 Joany D’Ávila – 3B1

Ó pátria!

“De um povo heroico um brado retumbante”

Quanto do teu suor

Molha os gramados

Grama dos de grana

Grama dos de gana

Com ciência engana o inconsciente

 

Copo dos Copos

De corpo frágil e in

acabado

Finge ser o melhor

Uma taça

Abriga veneno

Embriagando turistas

Ricardo Reis

Noite de abertura

Primeiro alvo

Na caça da musa

Lá perto da Augusta

Encontra inspiração

Na peruca do Robertão

 

Alberto Caeiro

Segundo alvo

Susto

Cadê as árvores? Os rios?

Só sinto soja

Só sinto gado

Sucinto ser

É ser humano

Tá chovendo seca no sertão

Melhor pensar positivo

 

Terceiro Álvaro

Tentando existir

No Copo procurou solução

Saturada? Insaturada? Ou com corpo de chão?

Em pleno devaneio

Não viu cair o Copo do balcão

Lá se vai sua dose de realidade com limão

Só deu pra ver os cacos de angústia

Espalhados pelo salão

 

Hão de ver que o Brasil não tem Sebastião?

Será que o suor gasto poderia ter sido água?

Será que vale a pena?

Será? Sei lá! Não sei aqui

Tudo vale a pena

Nada leva o canarinho

 

“Pessoa Fernando” – Guilherme Tavares – 3E1

Fernando falso fingidor

Facultou fajutas facetas fanáticas

Fecundou fictícios fundamentalistas ferrenhos

Fundiu filosofias fascinantes, fenomenais

Farsante? Falacioso? Febril?

Figura fértil, fervorosa, fantasmagórica, fulgurante

Festejou ferramentas futuristas fabris

Fez-se fantoche da fortuna

Filtrou fisicamente fenômenos factuais

Flexível flâmula fluida com fôlego faminto por frenéticas formas

Fraudulento Fernando?

Fernando fantástico!

 

Pessoa pagão poeta português

Paladino perpétuo da pátria

Pastor do particular patrimônio pensante

Pioneiro em pluralizar personalidades de predicados problemáticos

Possuidor de portfólio pretensioso

Pernicioso

Proclama provoca propõe pragueja

Profano professor!

Patologia? Passatempo? Paixão? Profissão?

Piedade poeta!, peço perdão por possível petulância

Porém permaneço pasmo pensando

Por quê?

 

Concurso Fernando Pessoa 2014

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “navegar é preciso; viver não é preciso.”
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para casar com o que sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. 

O Palavrarte convida os alunos do 3o ano a criarem textos sobre esse poeta que colocou a criação acima da vida.

Os textos podem ser de qualquer gênero (prosa, poesia, comentário crítico, carta, diário, diálogo…) e devem ter até duas páginas. O tema tem de ser relativo a Fernando Pessoa e/ou seus heterônimos.

O prazo para envio dos textos é 01/06 e eles devem ser enviados para palavrarte@colband.com.br

Os autores dos três melhores textos serão homenageados no dia 27/06, último dia de provas.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

(Fernando Pessoa, Palavras de pórtico)FP

Exposição Haroldo de Campos e Sarau: vamos?

 

 

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Nesta sexta-feira, dia 06, às 17:00, haverá um sarau de abertura da exposição “Pontos Luminosos da Poesia de Haroldo de Campos”, na estação Paraíso do Metrô. Visitar essa exposição, que vai até 30 de setembro, é uma maneira de conhecer um pouco sobre a obra de Haroldo de Campos, um dos nomes mais importantes da tradução literária e da poesia concreta no Brasil.

A exposição tem curadoria de Júlio Mendonça e apoio da Casa das Rosas; Guilherme Yasbek, ex-aluno do Bandeirantes, é curador do Projeto Encontros, que faz do Metrô um palco de manifestações culturais.

“Mostrar a poesia do Haroldo no Metrô, para um público tão numeroso e tão diverso quanto o que diariamente usa o Metrô, é uma oportunidade de diálogo que a poesia de qualquer poeta, hoje em dia, raras vezes tem. Haroldo nunca quis facilitar a poesia dele para ser aceito por um público maior, mas também acreditava no papel formador da poesia e no diálogo, ainda que difícil, entre a poesia inovadora e a cultura popular – a qual, aliás, ele também sabia que era a origem do novo, pois escreveu: ‘o povo é o inventalínguas’.” Julio Mendonça – Curador da exposição

Vamos?

PAIXÃO E CONHECIMENTO

 

Hora do chá. Com o inseparável diário e cercado por livros. Sandakam, Filipinas.

Hora do chá. Com o inseparável diário e cercado por livros. Sandakam, Filipinas.

Desde tenra idade gostava de ouvir casos de pessoas mais velhas, me encantava com narrativas sobre lugares e pessoas diferentes. Adorava as histórias de meus pais sobre a viagem que fizeram ao Nordeste pela recém inaugurada BR 116, em 1963. Conforme crescia aumentava minha vontade de conhecer maravilhas da natureza, povos de países longínquos e ter minhas próprias vivências para contar.

Meus conhecimentos de biologia, história, geografia e geopolítica se acumulavam graças a meus pais e a grandes e memoráveis professores que tive na escola. Por causa deles, eu sempre queria saber mais sobre esses temas e, além de assistir a inúmeros documentários, lia muito, especialmente sobre meio ambiente.

Em minha primeira viagem, enquanto meus amigos jogavam truco e xadrez para suportar as longas horas em trens e ônibus, eu ia lendo e escrevendo meu diário.

Com o tempo, as leituras se tornaram mais densas; e os diários, mais detalhados e elaborados, o que me ajudou a ser mais observador e a aprender mais sobre os locais que conhecia. Apesar desse amadurecimento, mantive o que um de meus irmãos afirma ser “meu espírito  eternamente adolescente”, sempre curioso, disposto a aprender com os outros e a arriscar.

E foi graças ao espírito genuinamente adolescente de meus alunos que fui adquirindo coragem para escrever e tentar publicar um livro com minhas crônicas de viagem. Primeiramente contava alguns dos casos para contextualizar o assunto que desenvolvia e percebi que o resultado era melhor do que o esperado, os alunos gostavam e viam sentido no que estudavam. Depois me encorejei a colocar alguns textos em provas e, para minha alegria, houve grande receptividade dos estudantes que diziam até se divertir durante a realização das mesmas.

Assim, nos últimos dois anos me dediquei a escrever minhas próprias e reais histórias, com ajuda de minhas fotos e dos indispensáveis diários, para não ser traído pela memória.

Fiz uma coletânea de fatos e observações sobre diferentes  povos e locais, sem me preocupar com uma sequência cronológica, temática ou geográfica.

Terminadas quarenta crônicas, era hora de ir atrás de editores. Foi sem muita esperança em conseguir uma publicação que enviei duas copias para diferentes editoras. Após cerca de dois meses, recebi um email com os seguintes dizeres:

“ Precisamos conversar, decidimos publicar seu livro”

– “ Precisamos conversar, decidimos publicar seu livro”

Agora sonho com o dia do lançamento, sonho estar abraçando as pessoas queridas nesse momento de euforia e alegria.

Obrigado a vocês, alunos, colegas, amigos e familiares que me encorajaram nessa viagem literária.

Guimarães Rosa, Viator

JGRosa 227 de Junho de 1908. Nascia em Cordisburgo, MG, João Guimarães Rosa. Viajou pelo sertão como médico. Viajou o mundo como diplomata, tendo servido em Hamburgo sob o jugo do nazismo. Poliglota (inclusive, em sua própria língua). Viajou de novo pelo sertão, como “Viator” (pseudônimo de seu primeiro livro, que daria origem a Sagarana). Recriou o sertão da violência e da jagunçagem e criou o da poesia e da linguagem. Em Grande sertão: veredas, o jagunço Riobaldo conta a história de sua vida de jagunço, atormentado por ter feito (ou pensado fazer) um pacto com o demônio; ao lado de questões existenciais, esse romance contém uma das mais bonitas histórias de amor da literatura brasileira. Abaixo, um trecho:

   -Pois então: o meu nome, verdadeiro, é Diadorim… Guarda este meu segredo. Sempre, quando sozinhos a gente estiver, é de Diadorim que você deve de me chamar, digo e peço, Riobaldo…

                Reinaldo, Diadorim, me dizendo que este era real o nome dele – foi como se dissesse notícia do que em terras longes se passava. Era um nome, ver o que. Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe. Da razão desse encoberto, nem resumi curiosidades. Caso de algum crime arrependido, fosse, fuga de alguma outra parte; ou devoção a um santo forte. Mas havendo o ele querer que só eu soubesse, e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse. Entendi aquele valor. Amizade nossa ele não queira concedida no simples, no comum, sem encalço. A amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor. (…). 

 

Fernando Pessoa chega ao Palavrarte – “Constelações”

Constelações

Acordou. A lua ainda distribuía suavemente seus raios de luz pela janela do quarto. Visto que despertara antes da hora, resolveu contemplar as estrelas. Isso o acalmava.

Sentou-se na poltrona perto da janela, e pôs-se a olhar para o Céu, seu rosto agora banhado pela luz da noite. Reconheceu uma constelação e outra, maravilhado com a imponência com a qual se apresentavam para ele.

Seria ele a constelação de Libra? Pensativo, talvez até demais. À procura de um equilíbrio, um sentido para a vida. Racional demais?

            Ou seria a constelação de Virgem? Talvez um pouco conservador; estudioso, sim, mas também comedido. Estaria a grandiosidade dos deuses com ele, ou teriam estes o abandonado?

            Quem sabe fosse a constelação de Áries? Um pouco inconsequente, mas absolutamente franco, simples. Ah, pra que perder tempo pensando nisso?

Estariam as estrelas zombando de suas indagações, suas certezas e inseguranças? Ah, se fosse frio e direto como a máquina! Talvez não se preocupasse com isso. Ou se fosse grandioso como as estrelas, observando o mundo e suas vidas desde a Antiguidade. Ah, se fosse poderoso e imortal como os deuses e os astros!

Para com isso – são só estrelas!

Seria ele um pouco de tudo aquilo?

Voltou para sua cama e deitou-se. Seu último pensamento, antes de dormir, simples e adequado: sou Fernando… PESSOAS.

Rodrigo Hubert Leme, 3H3

Fernando Pessoa chega ao Palavrarte – “Pessoa-II”

Pessoa

As estrelas são apenas pontos

Que quando não há lua iluminam a noite

E quando não há bússola indicam o caminho.

 

Os homens que veem nas estrelas seus amores e escrevem poemas para elas

Transformam o que deveria ser um astro iluminado em pensamentos inúteis e vagos.

Esses homens são tristes,

Pois tentam ver o invisível e esquecem de enxergar o que existe.

 

E as estrelas que vejo sentado na grama são apenas estrelas,

Cousas inalcançáveis que recobrem o céu

Que nada significam.

Enquanto as olho, espero o raiar,

Que as vai matar, decerto.

 

Quero olhá-las e as admirar pra sempre,

Pois só assim poderei afastar-me

Desse mortal que sou e olhar os deuses

Que nelas aparecem.

 

Colhamos as estrelas e guardemos

Seu brilho de alabastro e de marfim,

Porque a vida passa, Lídia, amada,

Mas a luz permanece.

 

E cada estrela é um pedaço meu,

Um pedaço do meu eu destroçado,

Que encontra a fuga somente no céu

E a cura no ópio, sol desgraçado.

 

Olho o céu estrelado e me identifico em cada brilho,

Pois se juntasse todos talvez surgisse um ser igual a mim.

Quem dera poder estraçalhar-me assim no firmamento,

Ser rasgado no peito por uma força tão intensa quanto a de uma máquina,

Sentir o meu corpo a se dilacerar e se tornar um milhão de estrelas.

Ó! O quão bom seria

Se cada parte de mim que não a mim pertence recebesse um brilho próprio

Para ser seu próprio eu destroçado,

Se cada parte de mim que não a mim pertence virasse um novo ser.

O quão bom seria se cada estrela que de mim saísse,

Com um brilho incompreendido, renegado, desiludido,

Se desvencilhasse e virasse

Um novo Pessoa.

 Flávia Odenheimer, 3B2