Ânsia

Para.

Senta.

Não fala.

Ânsia cresce dentro de mim…

Quem sabe um dia consigo livrar-me deste sentimento

De lixo

 

“Até onde sua família é sua família?

Se não respeita? Se não te aceita?

Só o que aceita é tua máscara

Máscara que deforma

Que machuca

 

Por que se sujeitar a tal julgamento alheio?

Sim, alheio

Pois nem sequer és conhecido para ser julgado

Só o que mostras é espelho

Em que se acredita por comodidade

 

Respeitar o diferente é tão doloroso e difícil assim?

 

Sabe,

Não quero mais derramar lágrimas suas

Chega desse amor mentiroso!

Amor egoísta

Que poe a própria dor acima de qualquer outra

 

Se quiser ser minha família, aceita sem reclamar

O que quer que eu faça de mim”

 

É….mas no final das contas, não importa o quanto eu nos pense, repense, dispense

 

Mantenho-me quieto atrás de seus pré-conceitos

E minha ânsia sempre volta

Mais forte

 

Verônica Dufrayer, ex-aluna 2017

Alegoria

Ele mentia. Ele mentia para o mundo.

Cresceu sendo um sonhador idealista. Um devido adepto às teorias Rousseaunianas. Ó, Bom Selvagem, salve-nos! Traga nosso Bem Humano de volta.

Cresceu acreditando na vida honesta. Na vida boa. No futuro feliz da humanidade. Num Viver de paz e harmonia com tudo e todos.

Cresceu.

Cresceu e aprendeu que viver não era o Viver que tinha imaginado. Não era nada do que sonhava e desejava e queria e acreditava. viver era difícil e sofrido para esses ideais. O verdadeiro viver exigia força, não boa-fé.

Saiu de casa cedo. Foi expulso. Não pelo pai ou pela mãe. Ele se expulsou. Queria Viver. Queria Viver nesse mundo que sonhava ser tão grandioso. Iria finalmente despertar o selvagem dentro de si e caminhar, sempre para frente, em direção ao futuro. Sonhou por tantos anos de adolescência com isso, que, quando alcançou a maioridade, já estava com um pé para fora. Um pé, vestido com seu melhor sapato. Tinha-o desde pequeno, mas ainda se encontrava com o tecido de pano novinho, pronto para qualquer pedregulho no caminho. Mesmo pé que, nem mesmo um ano depois de sair, tropeçou.

Tropeçou.

E tropeçou. Várias e várias vezes. Aquele sapato que havia vestido, a cada tropeço, se desgastava. E, a cada tombo que ele levava, ficava cada vez mais difícil se levantar. Tombos às vezes causados pela própria falta de percepção, ou pela confusão dos outros à sua volta. E como era confuso. Todos andavam olhando para cima. Os outros não estavam em busca de seus selvagens. Não entendia o que os outros buscavam. A maioria dos outros também não entendia. Só olhavam para cima, na esperança de, um dia, chegar ao topo.

E, para parar de tropeçar, se adaptou a isso.

Se adaptou ao viver. Passou a parar de buscar seu selvagem. Ele havia se perdido nessa vida. Deixou para trás seu sapato, agora todo mordiscado pela selvageria do viver. Calçou um novo par, de couro animal, brilhante e duro. Duro demais para ser confortável. Mas não precisava ser. Agora só iria para cima. Junto com os outros. Olhou para cima e foi.

E, ao se adaptar, mudou. Agora, usava tudo que podia para sobre-viver. Começou a não só entender o viver, mas entender também como os outros viviam. Conseguia predizer o movimento de todos. E usou isso a seu favor. Como um diretor de cinema, dirigia sua vida nos mínimos detalhes. Todas as falas, diálogos e interações. Tudo previamente imaginado. viver agora era um script.

Suas relações de trabalho se tornaram vazias, mas muito rentáveis. Amigos? Só aqueles de que poderia se receber alguma ajuda. E para que haveria necessidade de conversas banais senão para agradar alguém mais alto?  E, assim, dirigindo sua vida e suas relações, foi ao topo.

Subiu.

Emergiu. Alcançou o topo do viver. E, só quando alcançou ao topo, olhou para os lados.

Ao olhar para os lados, não se surpreendeu. Viu alguns, poucos, à sua altura. No topo. Todos viveram como ele. Dirigindo uma vida roteirizada pelos próprios protagonistas. Todos sobre-viveram.

Viu lá alguns que tinham subido com ele. E outros que nunca conheceu, mas, apenas pelo olhar cético, sabia que utilizavam todas as técnicas que ele conhecia bem. Era como estar em uma casa de espelhos gigantes. Todos iguais. Todos no topo.

Um pouco mais abaixo, viu um mundo de gente. Todos aqueles que conheceu ao longo de sua vida e todo o resto. Aqueles que viviam. Viviam, sem nunca chegar ao topo. Mas viviam.

Achava que ia ser isso. Parou de olhar para os lados. Nenhuma surpresa. Nenhuma surpresa até, por algum motivo inexplicável, decidiu dar uma última olhada. Não para os lados. Mas, dessa vez, diretamente para baixo. E, ao olhar para baixo, surpreendeu-se.

Havia lá uma mulher. A mulher. Um único ser. O único ser que não tinha nem começado a subir. Não tinha vivido. E, ao vê-la, por algum motivo profundo, talvez por se lembrar da época em que estava nesse nível, se lembrar de seus numerosos tropeços, decidiu descer para encontrá-la. Para ajudá-la. Para ensiná-la a viver.

Desceu.

Ao chegar na base, se dirigiu até ela e pôs-se a pensar. Como sempre havia feito, começou a planejar seus movimentos, suas frases e as respostas que teria. Como sempre havia feito, escreveu o roteiro dessa próxima interação. E, como sempre havia dado certo, ficou chocado quando, dessa vez, não deu.

Aproximou-se da mulher e começou. Falou, se apresentou e perguntou quem era. A resposta veio em ruídos incompreensíveis. Ficou assustado. Repetiu. Mais ruídos. Decidiu tentar fazer alguns gestos, talvez fosse outra língua. Após a linguagem corporal, a mulher ficou turva. Seu corpo quase inteiro ficou indistinguível do resto do ambiente. A única coisa que se podia ver eram seus sapatos. Seus delicados sapatos de pano. Era possível ver que estavam desgastados, porém permaneciam em seus pés, aparentando serem tão velhos quanto ela. Logo acima desses sapatos, marcas de machucados de quedas. De tropeços.

Não havia mais como entender seus movimentos. Não conseguia decifrá-la. Nunca iam conversar. Ela nunca iria viver como ele.

Perdeu a esperança de qualquer interação e voltou ao topo.

Ela ficou na base, e, contrariamente ao que ele pensava, Viveu. Viveu diferente de como os outros viviam. Não havia se adaptado, e Vivia assim. E Viveu assim. E passou pela vida dele assim. E ele, não conseguindo se adaptar à não-adaptada, viveu sua vida.

Continuou com seus sapatos de couro inteiros e íntegros. Nenhum arranhão. Mas ainda duros como da primeira vez que os botou. E ela continuou com seus sapatos de pano, desgastados e, em partes, até rasgados. Confortáveis como um par de penas no lugar de pés. E com suas diversas marcas de tropeços. Marcas que colecionava com prazer.

Ele viveu. Ela Viveu. E ele a deixou passar.

 

Pedro Kiffer, 3G

Irmandade mitomaníaca

As quimeras chegavam ao salão

Híbridos, trocavam seus rostos

Volumosos vestidos

Desmedidas cartolas

Carregavam enigmas

Bestas mitológicas,

De seu arsenal saiam máscaras

Escondiam seus rostos

Nunca as achariam

Uniam-se em circunspecta falsidade

Expiravam falsas verdades

Assim, sincronizavam-se

Decifra-me, ou devoro-te

Devoraram os díspares

Manada comportamental

 

Rebeca Urbano, 3C

Demorei tanto tempo

para admitir

Que eu amava você,

mas não sabia como agir.

 

Quando via você,

meu coração acelerava

Não queria aquilo,

não podia fazer nada.

 

Assim o tempo

tornou-se um inimigo

Aquele contratempo

era um castigo

Mas agora, o problema

já não era mais comigo.

 

Logo desisti,

parei de tentar

E então percebi,

que eu não sabia amar.

 

Joana d’Arc , 7D 

Não sei que gênero é esse parte 2

Às vezes me sinto frustrado quando quero dar atenção, meu tempo e minha dedicação e recebo em troca silêncio (ou pelo menos acho que seria isso). Mas por favor, não desista: o fogo que não se apaga nem durante a chuva é o que mais aquece as pessoas. Eu sei que é difícil passar recreios sozinhos, tardes solitárias e não ter com quem compartilhar a voz. Eu sei de tudo isso. Mas não deixe se abalar por isso: se esforce, se motive, quando alguém der as costas para você as dê uma massagem, quando alguém estiver em silêncio deixe que seu sorriso fale ao invés de suas palavras, e se sentir sozinho e abandonado, lembre-se de tudo que você ainda pode fazer e que nada está perdido. Há tantas pessoas nesse mundo, há tantas aventuras a serem vividas. E sim, amizades e, principalmente, amores. Nem todas as pessoas são rasas e frias. Há muitas pessoas legais no mundo. E sim, apesar de serem mais raras, também há aquelas pessoas que você se liga tanto, e que tem tanta empatia, que começam a usar as mesmas gírias, as mesmas expressões, até o ponto que você não sabe quem é quem e tudo acaba em beijo, como sempre foi e sempre será. Quando você tiver muitas tarefas, e parecer que tudo está nublado, lembre-se que não importa o que acontecer, eu sempre estarei ao seu lado. Somos ambos duas fragatas navegando por um oceano caudaloso, buscando a definição de amor e liberdade. Enquanto continuarmos remando para a frente, enquanto não desistirmos de tentar, então o sol continuará raiando no horizonte, e poderemos subir nas nossas proas e sentir seus raios tocaram suavemente nossa pele, enquanto rimos e percebemos como a vida pode ser bela se você tiver paciência suficiente para olhar.

 

Sérgio André Cristovão, ex-aluno 2017

Eu sou Nordestino

Eu sou Maria e Severino

Eu sou guerreiro

Eu sou cangaceiro

Eu sou filho de sol e sal

Eu sou afluente de uma fonte cultural

Eu sou sofredor

Eu supero a dor

Eu me arrisco

Eu conquisto

Eu tenho orgulho das minhas raízes, que me tornam indispensavelmente humano.

Eu tenho orgulho de bater no peito e ser Asa Branca

Eu tenho orgulho de abraçar minha essência e ser eu mesmo.

Sou Xaxado

Ceará

Jorge Amado

Carcará

Suassuna

Iemanjá

Velho Chico

Paraíba

Maranhão

Macunaíma

do Sertão

Maria Bonita

Lampião

ô, Terra Rica!

Mãe do Brasil,

Vê que filho teu não foge à luta

Mesmo sendo tratado como vil

Não desiste ou reluta

Pelo contrário

Mostra que se orgulha

Eu sou Salvador

Eu sou Nordestino

 

Salva, 3E

A vida não anda fácil

A vida não anda fácil

Anda tropeçando, claudicante

A vida caminha molhando os pés nas poças,

esbarrando nas pessoas à frente

vira e mexe para e afaga um cachorrinho que passa.

A vida anda num pé só, a vida dá pulinhos e por pouco não cai

A vida anda dando estrelas, rodopia, rodopia,

rodopia e para. Ficou tonta.

Pronto, passou. Vai voltar a andar.

Mas aí abaixa e pega uma moeda que viu no chão,

e a olha um minuto ou dois e volta a jogá-la no caminho.

 

A vida não anda fácil

e às vezes se mete no caminho dos outros.

Aí a vida anda empurrada,

xingada, chutada pelos cantos.

A vida anda um pouco asmática, não puxa o ar direito

a vida anda meio manca, as juntas ardendo,

e o ciático atacando.

A vida anda gritando, resmungando,

anda falando que cansou de andar.

A vida anda e já faz tempo que não vê uma poça,

um cachorrinho, uma moeda.

A vida anda e quase já não lembra  como dar uma estrela.

A vida anda e já não gira:

culpa da labirintite.

 

A vida não anda fácil, quase já não pula,

parece que os sapatos passaram a grudar no chão

(A vida anda e mal se lembra de quando começou a calçar sapatos).

A vida anda e já não atrapalha ninguém,

a vida anda e passou a empurrar os que ficam pelo caminho

(a esquerda é pra andar, porra!)

A vida anda mas agora anda pra chegar

não anda por andar

anda pra chegar e não chega

A vida não anda fácil

e anda, anda, anda

 

Mario Neto, ex-aluno 2015

Malagma

Devaneios sobre as gengivas

Todo poeta gosta de cantar os olhos.

Na poesia os olhos são como as bundas,

amor nacional, paixão das torcidas.

Nas faixas, a ver:

“Olhos de ressaca”… “olhos negros como a noite

que não tem luar”… “quantos naufrágios nos olhos teus”…

Olhos: preferência dos poetas!

Mas, eu? Eu prefiro as gengivas!

Há algo mais poético que uma gengivinha?

Moldura, coram-se as gengivinhas

num sorriso sincero: protagonizam os sorrisos

mais belos as gengivas…

Mas, veja bem, não falo de qualquer gengiva,

de gengivas pagãs, mas da gengivinha

da moça que conheci na festa…

Para ela entoo o canto solo pelas gengivas.

Inicio-me nesta seita dos poetas que

amam as gengivinhas das musas, das ninfas,

das moças das tardes, das noites, dos cafés…

Recriem-se os quadros! Refaça-se o Louvre!

E pintem! Pintem as gengivas!

 

Esse poema integra a obra Malagma, de Filipe de Gaspari, ex-aluno 2010, publicada pela Editora Paduá em 2017.

Astro Inorbitado

Eu te salvo do mundo,

Você me salva de mim.

Eu te ensino o profundo,

E você me aprofunda em mim.

 

Me sinto uma estrela ardente,

E você eh um mundo gelado.

Mas enfim você me lembrou

Que sempre estive errado

 

Dentre tantas estrelas no espaço

Eu sou apenas mais uma:

Não sou a maior; nem sou a mais quente

 

Assim que, a um mundo gelado

Sempre estará destinado

um astro mais bem formado.

 

L. R., 2K

Eu Não Sei Se Você Sabe…

Eu não sei se você sabe, mas, quando dormimos, os espíritos saem de seus corpos e vão fazer… o que tem de fazer.

 

Porém, nem tudo é trabalho no “outro lado”, pois precisamos nos doar para algo que nos chama de tempo em tempo. Deus percebeu isso em mim e me convidou para tomar uma xícara de bebida quente. Ao chegar no local programado, lá estava uma de suas belíssimas manifestações, com seus traços finos e olhar de compreensão e felicidade:

 

– Chamou, Mãe?

 

– Sim, pequenino, venha! Ajuda-me em erguer uma parede nesta nuvem. Disse Já “agachad@”, jutando aquela espuma macia e confortavelmente morna.

 

Me ajoelho ao seu lado, enfiando minhas mãos na matéria prima. “Elx” cantarolava canções fabulosas e que eram de minha preferência – era criação “delx”, descoberta nossa.

 

Depois de algum tempo, que não consigo mensurar – mas, também, não foi tempo demais -, “Elx” me chama: “Tu achas que este comprimento está bom, meu filho?”. Observo a parede de quatro metros de comprimento, cinco de altura, se unindo ao meu trabalho não muito diferente. Talvez meus olhos vejam a minha parte como inferior devido ao Ser que me acompanha:

 

– Seja sincero, meu filho.

 

– Está ótimo! De verdade.

 

De nossas mãos, as duas paredes se tornam quatro, com uma porta e algumas janelas altas. Era gratificante o trabalho artesanal – principalmente com o reflexo do por d sol e seus tons de laranja, vermelho e roxo – mas não estava me satisfazendo como deveria. Era como…:

 

– O que te preocupas, pequenino? Ecoou a voz que, com sucesso, procurou meu conflito.

 

– Era como se esta criação não fosse obra minha. Isso Faz perder a graça da criação, sabe?

 

– Bem, Vamos resolver isso? O que falta?

 

Entrando na sala, fitando o que eu entendia como ideal, formava-se algumas prateleiras, um banco de três pés, vasos com as mais diversas flores e um tripé com uma tela; mas ainda era apenas nuvem.

 

Fechou a porta. Ando até a beira da nuvem. Me sento.

 

“Elx” abre um sorriso tímido. Senta ao meu lado e começa a moldar um pedaço da nuvem. Sua voz ecoa com onipresença:

 

– Depois de tanto, percebe-se que nem tudo é trabalho, pois precisamos nos doar para algo que nos chama de tempo em tempo; do que sua essência faz necessidade, filho?

 

– Um plano de bolso, Deus, para eu me permitir me manifestar com sinceridade.

 

“Elx” me entrega uma chave -modelada da nuvem – que era sólida, fria ao toque e ligeiramente pesada.

 

Levanto, me dirijo até a porta e a destranco.

 

Entro.

 

Fitando o que eu entendia como ideal, observo um banco alto, de madeira de um escuro marrom polido e envernizado. As prateleiras, do mesmo material e cuidado do banco, suportavam as mais diversas flores, que pareciam me receber com carinho de um velho amigo. Também havia um tripé metálico, preto, e uma tela branca, com todo material que precisava. As taboas do chão pareciam ser um marrom alaranjado, devido ao belo por do sol que foi petrificado nesta sala.

 

“Elx” já não estava mais lá. O trabalho desta manifestação foi concluido. Mas não o meu…

 

“Já venho!” eu disse enquanto trancava a porta por dentro.

 

Arthur Degering. Sobrevivente, ex-aluno 2014