Memórias póstumas de um vestibulando

Ao corretor
que
primeiro roeu as frias folhas
de minha prova
dedico
como saudosa lembrança
estas
Memórias Póstumas.

E, claro, também aos
indispensáveis amigos,
inigualáveis mentores,
inesquecíveis professores.

Um ano.
Mil planos.
Vários livros.
Um objetivo.

Missão cumprida.
Volta à casa.
A grande fadiga
mais que bem retribuída.

O acaso favorece quem se prepara.

Carpe Diem.

Miguel Sarraf, ex-aluno 2016

Concurso Fernando Pessoa 2017: Edital

Participantes: alunos da 3ª série do Ensino Médio;

Gênero textual: livre, em prosa ou poesia (poema, conto, crônica, ensaio, diálogo, carta…). A única exigência é que o tema seja relacionado ao poeta e/ou seus heterônimos;

Limite de tamanho: até duas páginas;

ATENÇÃO: os textos NÃO devem ser identificados com o nome do aluno, apenas com seu login (número de matrícula) e devem ser enviados pelo e-mail do Band para palavrarte@colband.com.br;

Seleção: a comissão julgadora será formada pela equipe Palavrarte e outros professores de Português. Serão levados em conta os critérios:
• Coerência em relação ao tema;
• Articulação entre aspecto da poesia pessoana escolhido e estrutura;
• Originalidade;
• Expressividade;

Premiação: os três primeiros colocados serão premiados com livros do autor, no dia 06 de setembro (último dia de aulas do terceiro bimestre);

Data-limite para o envio dos textos: 14 de junho (último dia de aulas do segundo bimestre)

Todos os textos selecionados serão publicados no blog.

Esperamos seu texto!
fernando-pessoa

Anoitecer

Cada raio de luz
Aos poucos se desfaz
O branco vira vermelho
O vermelho vira azul
E o azul fica negro.
O negro é tão escuro,
Não vejo nada…

Então brilha a lua,
Pálida, solitária.
As estrelas consolam
Seu triste choro,
Brilhando fracas,
Em uníssono com a
Mãe, em vão.

As luzes se apagam,
A cidade dorme.
Vagam à noite
Apenas os fantasmas,
De tempos alegres
E eles festejam
Ao som do jogral embebedado.

Canta o jogral
Sobre as alegrias passadas,
As mulheres amadas,
As dores causadas,
À vida, à morte!
Um brinde ao amor!
Um brinde ao ódio!
Afinal, do que seríamos nós
Sem nossos sentimentos?

E nossos tormentos?
Do que somos feitos,
Além de tormentos?
Que tormentos?
Estamos tão alegres,
E a noite é tão linda…
Tomemos então
Esse delicioso vinho…

E aos poucos,
Tudo fica mais claro e
Volto a enxergar.
O negro volta ao azul,
O azul volta ao vermelho
E o vermelho vira branco
E surgem então os primeiros raios de luz.

Marcelo Victor Nigri, ex-aluno 2016

Cinzas

Abriram a janela do quarto, e lá estava a cama do céu com o mar.

Naquele dia de céu frio, o sol decidiu não aparecer detrás das nuvens.

A única luz era a do farol. Fantasmagórica, seca e cada vez mais distante.

As ondas quebravam relutantemente na madeira gélida do pequeno veleiro a sair sem rumo…

O mundo era frio, a não ser pelo beijo demorado dela, destoante da imensidão cinza de céu e oceano.

Contra a corrente que empurra tudo para um passado fincado em terra firme, os dois seguiam à mercê do vento que espalhava todas as promessas e suspiros pelo alto-mar.

Alto-mar, esse, que todos só sabem que sonham em conhecer após abrirem a janela depois de acordar e lembrarem-se daquilo com o que um dia foi sonho.

Pedro Forbes, ex-aluno, 2015

A hipóteses da descendência de Narciso

Muito se fala no mito de Narciso. Na narrativa mítica, esse belo jovem se afoga em um lago em uma tentativa impossível de alcançar a sua imagem refletida na água. O homo sapiens, principalmente na contemporaneidade, aparenta trilhar o mesmo caminho de Narciso, induzindo à elaboração de duas questões: poderiam os humanos ser descendentes de Narciso e conseguirão eles chegar ao seu nível de auto-idolatria?

Uma analogia pode ser feita entre Narciso e os seres humanos: ao passo que Narciso admira a sua imagem refletida na água, os homens contemplam suas imagens refletidas na sociedade. Essa última reflexão pode ser também chamada de “julgamento público” e é baseada em padrões estabelecidos pela sociedade, como preconceitos. Tal diferença no agente refletor é o suficiente para tornar o amor próprio em desprezo próprio, o que acontece porque a adequação do caráter e corpo de um indivíduo ao que é considerado ideal nem sempre é possível, ou frustra seus desejos pessoais e lhe provoca a insanidade. É possível concluir, portanto, que o gene da auto-idolatria de Narciso teve seu fenótipo alterado pelo meio (e ironicamente para o oposto).

Sendo a auto-idolatria substituída pelo desprezo próprio, o homo sapiens inicia sua renovação: a reconstrução de seu corpo e de sua personalidade. O convencional para os homens jovens é usar anabolizantes e adquirir tatuagens, enquanto para as mulheres é a aplicação e silicone para aumentar o seio, a lipoaspiração e o intenso uso diário de maquiagem. Nota-se que todas as mudanças visam a intensificar (Obs.: visam, nesse caso, é VTI e exige preposição) as características sexuais secundárias, pois contentar-se com a dose hormonal natural de seu próprio organismo é um “luxo”. Há também um terceiro tipo: os hipócritas. Esses são aqueles que procuram se afastar o máximo possível dos padrões estabelecidos, supostamente uma forma de mostrar que a opinião pública lhes é desprezível, e, então, saem à rua ansiosos pela reação do público.

Narciso chora em seu túmulo aquático. Chora pelos humanos, seus descendentes, que possuem a capacidade de converter todo o amor, inclusive aquele a si mesmos, em ódio. Nunca um parente lhe pareceu tão distante.

Adriano Nishinari, 3B1

Conto do metrô

Na Sé, Socorro acabou de entrar no vagão. Agora, já não resta mais nenhuma baldeação até seu destino e a mulher já pode descansar. Suas fortes panturrilhas doem por conta das horas de trabalho na faxina e ter achado aquele assento livre quase fez valer a pena seu atraso para sair do trabalho. A xepa já está quase no fim e os vagões ainda quase cheios. Socorro saca seu celular, não por estar entediada pois sempre foi muito paciente, mas pela simples necessidade de matar as saudades de seus meninos. Faz 12 horas que deixou o mais novo na escola. Enquanto revisita as fotos dos filhos, tira os olhos do celular para dar uma pequena olhada na linda jovem sentada ao seu lado, a menina não demonstra expressão nenhuma, parece estar imersa no mundo de seu fone de ouvido. Vira os olhos para o velho de chapéu na sua frente e este também está ausente e imóvel. Em meio a calmaria do vagão, Socorro passa os olhos pelos seus passageiros e repara que estão todos parados. Extremamente parados. A mulher levanta lentamente e caminha entre aqueles corpos, todos paralisados, congelados em suas posições, uns diante do celular, outros de olhos fechados ou contemplando o teto. Socorro cutuca as pessoas e de ninguém recebe resposta. Senhor? Senhora? Nem piscar, piscam. Seus pés e mãos estão firmes no chão e nas barras de metal. Antes de gritar com alguém, a faxineira percebe que desde que entrou no vagão, o trem não parou em nenhuma estação. Tomara que ele pare pelo menos na sua, já que é a última. Socorro olha para o relógio do vagão e este ainda funciona normalmente. Ela volta para os bonecos diante de si e toca em seus corpos, buscando sinais de vida. Suas peles ainda estão quentes e seus corações ainda batem. Socorro verifica se o seu ainda funciona e fica aliviada por um momento. Ela fita o relógio e vê os minutos passarem. 20. 40. Só consegue pensar nos seus filhos. O túnel já não tem mais fim e o trem já não tem mais destino. Ela tenta ver algo pela janela, mas só consegue enxergar as paredes cinza escuro de concreto passando rapidamente pelos seus olhos. Meu Senhor Jesus Cristo! Seu grito é o primeiro som a ser escutado além do ruído do trem, do atrito das rodas com os trilhos e do chacoalhar das carcaças dos vagões. O barulho constante vai aumentando de volume e tomando conta dos ouvidos da mulher. Ela não ouve mais nem sua própria voz. Socorro lembra novamente do desamparo de seus filhos. O que farão sem ela? Como conseguirão dinheiro? Não queria que Jonas começasse a trabalhar tão cedo. A mulher olha para o relógio/calendário nos painéis do vagão e vê passar um dia. Dois. Um mês. Dois. O trem continua em seu trajeto infinito, correndo sem rumo até a eternidade. Socorro já não sente nada, nem mais raiva de seus companheiros por não respondê-la, nem mais o calor de seu próprio corpo, nem mais o bater de seu coração, nem mais saudade de seus meninos. E sem, em nenhum momento, se questionar do porquê de tudo isso, Socorro segue de Metrô a lugar nenhum.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)

O grito

Cada letra,
Gota de sangue,
Da ferida que macula,
O triste coração.

Se muito escrevo,
Sofro de hemorragia.
Hemorragia causada,
Pela vaidosa solidão.

Perambulam almas, agitadas.
Nada veem,
Apenas caminham,
Presas na tristeza cega.

Falo com elas,
Mas não tenho voz
Toco nelas,
Mas sou feito em gás,
Perfuro elas,
Mas são tão cegas,
Que não sentem a dor.

Eis que caminho,
Com essas palavras
E continuo caindo,
Como uma gota na chuva.

Marcelo V. Nigri, ex-aluno 2016

Um pouco de possível

Um pouco de possível,
Para que eu possa respirar.

Um pouco de possível,
Para que eu não sufoque.

Um pouco de possível,
Para que eu possa sentir.

Um pouco de possível,
Para que eu continue a sentir e,

Um pouco de possível,
Para que de impossíveis e do impossível,
Faça esse ser
O possível.

Tiago C. Botelho, ex-aluno (2015)

————————————————————
Devo acrescentar como adendo a quem possa interessar que parte desse poema toma emprestada uma frase de Gilles Deleuze – filósofo francês – acerca de seu amigo e também filósofo, Michel Foucault: “Um pouco de possível, senão eu sufoco…”

Travessia

Para onde? Não sei…
As águas o barco levam a novos mares.

Pode ser que eu encontre
Aquele cão mijando no caos,
Que caia numa cachoeira,
Ou na baía de sereias.

Mas o barco carrega
A valiosa carga: memórias.

Essa canoa terá de viajar
Mas seu coração
Permanecer deseja
Dormido nesse castelo.

Dedicatória:
Um presentinho de despedida aos meus queridos professores do Bandeirantes até meu retorno. Até lá, cuidem deste coração que aqui permanece.

Marcelo V. Nigri, 3E2

Garo(t)a em SP

Vivo em um mundo de tanta coisa compartilhada:
fotos, vídeos sobre o tudo e o nada
que não entendi a cara de assombrada
que ela fez
quando despretensiosamente estendi meu guarda-chuva,
nem o sorriso que ela me deu por conta daquele gesto cortês
como se estivesse em um conto de fadas e fosse uma principessa numa floresta encantada
Que nada!

Estava na cidade-concreto mesmo.

Era apenas uma garota em SP.

Natália, 3B1