(sem título)

O que não sai no jornal,
O que a notícia ameniza,
O que é um problema geral,
E que a novela romantiza.

A negra sempre sexual,
A favela sempre alegria,
O negro sempre é o Mal,
A mesma história de vida.

A mulher sempre submissa,
Sempre da casa cuidando,
Se não é mãe, é da vida
Nunca a vemos lutando.

O gay sempre caricaturado,
A lésbica sempre fetiche,
Mas são, pelo menos, mostrados
E trans que aí nem existe.

É fácil excluí-los da mídia,
É fácil escondê-los do povo,
Difícil é lutar por justiça,
Difícil é tentar algo novo.

Marina Gomes, ex-aluna (2013)

No meio da USC

Estou estudando sentado num banco de praça, no meio do campus
Tem uns rapazes jogando um jogo com bola e cama elástica na grama no meio da praça
Do outro lado da praça vejo redes e gente fazendo exercícios
Tomei um gelato orgânico que comprei no Farmer’s Market
O gelato foi bom e barato
Centenas de bicicletas estacionadas na entrada da biblioteca à minha esquerda, é a Leavey
Gente entrando e saindo das aulas na biblioteca à minha direita, a do VKC
Pessoas passando de skate, bicicleta, patinete ou caminhando
Muitas com copos de café tipicamente americanos nas mãos
Um grupo joga frisbee em outra parte do gramado
Estou me sentindo um hipster da Vila Madalena
Fico pensando se na USP seria possível algo assim
Estudantes alegres, seguros e tranquilos
Convivência plena entre o estudo e a diversão
Eu aqui digitando meu essay enquanto na minha frente alguns jogam vôlei
Em pensar que na USP mal me arrisco a levar o computador
Sou um hipster digno da Pinheiros ou Baixa Augusta
Mas sou chique, porque estou numa universidade na Califórnia
E sou um poeta brasileiro perdido e estudando inglês
Na University of Southern California
So fight on Trojans

Thomas Tyn Chow Wang, ex-aluno, 2013

“Do ódio ao amor”

Odeio o ódio. Odeio com tanta força que odeio odiar tanto. Odeio quem tem ódio. Odeio quem prega discurso de ódio. Odeio quem se beneficia do ódio. Odeio quem estimula o ódio. Odeio quem reproduz o ódio. Odeio quem vive pelo ódio.

Agora troque todos os ‘ódios’ e ‘odeios’ por amor.

Giovanna Torres Fabbri, ex-aluna, 2013

Memória seletiva (capítulo 1)

O homem acordou com dor de cabeça e tontura. “Deve ser mais uma puta ressaca” pensou. Olhou para o criado mudo, que estava a direita e viu um bilhete carinhoso de sua mulher: “Amor, ontem foi muito bom. Fui para o trabalho e volto tarde, cuide da casa e descanse.”, “Estranho” pensou o homem “Acordo com uma ressaca destas e há um bilhete carinhoso de minha mulher na cabeceira da cama.”. Ainda tonto, levantou e tentou caminhar até o banheiro escorando-se nas paredes, após alguns tropeços e a queda de um quadro, chegou e apoiou-se na pia. Olhou o próprio rosto, olheiras enormes e barba por fazer. Pigarreou e tossiu, cuspiu catarro na pia e decidiu tomar um banho. Começou a procurar por sua toalha, “Onde eu deixei a toalha ontem?“ se perguntou. Encontrou-a pendurada por cima do box, seca e áspera. Sem perder mais tempo despiu-se da bermuda e da cueca e entrou no banho. Deixou a água morna cair e escorrer lentamente seu corpo sem se preocupar com nada. “Como faz bem um bom banho” refletiu “Quem sabe até me cura dessa ressaca”. Pegou seu xampu e lavou seus cabelos, em seguida enxaguo-os. Ensaboou-se pensando “Mas o que eu fiz ontem? Claro, devo ter bebido, senão não estaria de ressaca, mas o que eu fiz?”. Saiu do banho, enxugou-se ainda tentando se lembrar do que tinha feito na noite anterior. Obviamente, sua esposa esteve com ele e divertiu-se. “Será que fomos a alguma festa?” tentou pensar. “Mas eu não me lembro de festa alguma, será que fizemos algo só nós dois?” tentou relembrar. Impossível se lembrar. Sua cabeça girava e parecia que ia explodir. Sentiu que caía, mas logo se apoiou novamente sobre a pia. Acabou de secar-se e voltou ao quarto, um pouco menos tonto. Vestiu-se simplesmente, camisa de algodão branca, bermuda esportiva velha e, claro, uma cueca nova. Saiu do quarto e foi ao corredor, passando pelas duas outras portas do corredor, uma do banheiro e outra do quarto que era usado como escritório. Pensou em tentar trabalhar “Mas só depois de uma boa refeição… E se esta ressaca estiver melhor”. Passou pela sala, que estava em perfeita ordem, e entrou na cozinha. Para seu espanto, a cozinha estava um pouco desordenada “Hoje deve ser sábado ou domingo, já que a faxineira não veio” raciocinou. Não sabia o que comer, sequer se havia comida. Ainda com tontura, abriu a geladeira, pegou maionese e alguns frios, um pacote de pão de forma e fez algo que no momento poderia ser chamado de sanduíche. Com o sanduíche sobre um guardanapo na mão esquerda e a mão direita pondo pó de café na cafeteira voltou a pensar “Mas que diabos eu fiz ontem?”. Ainda sem se lembrar, sentou-se no sofá da sala, pegou o controle remoto e ligou a televisão. Após ligá-la zapeou entre vários canais, e parou em um de noticiários. O noticiário narrava um crime horrendo, quando o homem ouviu a cafeteira fazer o barulho que indicada o término do processo. Levantou-se pensando brevemente no caso que vira na televisão e pegou seu café. Retornou ao sofá e sentou-se novamente. O apresentador do noticiário narrava: “Após uma grande festa ontem a noite cerca de vinte pessoas foram sequestradas e mais de cinquenta estão desaparecidas, mais detalhes com a nossa repórter, direto do local do crime!” a repórter continuava: “A polícia descobriu que após uma festa realizada neste prédio ontem a noite quase todos convidados desapareceram misteriosamente, exceto alguns que trabalham na mesma empresa”. Sua cabeça girava, aquilo tudo lhe parecia familiar. A rua, o prédio, tudo em volta da repórter lhe parecia extremamente familiar. “Besteira,” pensou “Deve ser o álcool que ainda está no sangue”. Mesmo querendo comer e esquecer a notícia o homem continuava atento aos detalhes do telejornal: “A polícia não tem pistas e os convidados que tem sua localização confirmada estão sendo levados para a delegacia central da cidade, onde provavelmente prestarão depoimentos”… O homem questionou mentalmente “Mas como assim a polícia não tem pistas?”, o repórter continuava “O caso todo é muito estranho, parece que houve uma comemoração sem razão e os convidados não deixaram o prédio, pois muitos dos seus veículos continuam na rua”. O homem observou cada um dos veículos mostrados pela repórter e realmente perturbado se perguntava “Esse lugar me é muito familiar, mas quando e porque estive aí?”.

Thomas Wang, ex-aluno (2013)