Lua

Eu parei pra ver.
A lua brilhar.
Ela estava me ensinando.
Me fazendo pensar.

De longe, ela vê tudo que acontece aqui.
Deve ser triste.
Triste pelo que eu vi.

Não fala nada, sinal de sabedoria.
O que ela faz?
Ela brilha.

Mesmo triste.
Ela aparece.
Vem me dizer.
Que o amor cresce.

E nesse momento.
A tristeza partia.
E a lua?
A lua brilha.

Arthur Ribeiro, ex-aluno, 2014

Mas havia um blog no meio do caminho

Existe, na Terra das Almas, um poço. Não qualquer poço, pois ali não havia água nem qualquer outra matéria que possa estimular a pele que habitamos. Não sei se você sabe, mas a alma, quando fora do corpo, procura o desconhecido, pra torná-lo conhecimento e poder continuar sua caminhada de evolução na Terra de Carne. Eu, graças a uma certa moça que matou o gato, conheci esse poço.

Quando eu conheci o pitoresco ponto, fiquei maravilhado e intrigado de certa forma. “Será aquele o famoso poço?” pensei comigo, e, por pura diversão, a moça sussurra um “Por que não olha de perto, pequeno?”, incitando o mesmo desejo que uma mulher teve quando uma cobra ofereceu uma maçã, e a este desejo eu cedi. Caminhei, vagarosamente, em direção ao poço de muros baixos e pedras com musgo-dos-velhos-tempos, imaginando o que havia de tão especial lá dentro. Mas, apesar de toda minha cautela, havia um blog no meio do caminho…

Eu caí!

O grande problema, é que eu caí!

Continuei caindo…

E caindo…

E caindo… Bem, você já me entendeu!

O primeiro grande problema foi o silêncio: era apenas eu, as paredes do poço, aparentemente sem fundo, e um pouco de tédio. O segundo grande problema era falta de resposta: cadê o conhecimento prometido? Era aquela queda, apenas, sem fundo, sem fundamento? Eu não entendia!

Mas, depois de alguns quilômetros de queda, eu verbalizei o meu primeiro desejo: “Tudo que eu queria era um abraço”, e foi um abraço que ganhei. Sabe do que? “Tudo que eu queria  era um abraço”, com letras garrafais e um calor confortável para passar segurança. Eu não sei de onde elas surgiram, mas surgiram, e pelos próximos quilômetros era o suficiente. Depois, eu verbalizei um poeminha/ que mais natural, não tinha/ mesmo não sendo natural/ de mim/ fazer simplórias riminhas. “Se de palavras eu tenho concretas respostas, eu gostaria de perguntar se posso ter asas nas minhas costas”. Não muito demorou para elas surgirem, mas ainda estava insatisfeito.

Eu já não estava mais preocupado, pois eu poderia voar e voltar para casa, mas não sabia se gostaria de sair, afinal, por que o poço estava ali? Demorou um pouco, mas verbalizei a grande questão, que se concretizou e caiu mais rápido do que eu. Um vento soprou uma resposta aonde meus olhos alcançavam: “Descobrir seu nome. Afinal, alguém precisar assinar-se como dono dessa história. Qual é o seu nome?”

Qual é o meu nome?

Qu(em)al é o m(eu)?

Para manter a surpresa, eu a revelo no final.

Com a resposta, bati minhas asas, satisfeito, e voltei para a Terra das Almas, novo, forte, evoluído e com uma pulga atrás da orelha. Curioso estava pra saber o motivo desse tropeço, que mais parecia golpe de sorte. Vasculhei de perto e reencontrei o blog no meio do caminho, e lá estava escrito: “Bem vindo ao poço cujo nome é Palavrarte”.

Então, a este blog, gostaria de concretizar um sentimento, e depositá-lo com carinho, e escondido, debaixo dele, pois graças a este blog, sou um espírito com asas; como Coração de Leão, “Obrigado” eu assino, na minha humilde letra cursiva.

Assinado: Coração de Leão, ex-aluno, 2014

Canção do Asilo

Velho quando não morre é bicho tosco
Que a morte resiste em abraçar
Velho quando lembra que existe
Não se surpreende com nada
Nem com eclipse
Nem com Iphone
Nem com elipse
Nem bom uso do pronome
Reclama de todos, entende a todos
Boceja, retesa, volta a dormir
E o tempo passa
Ele não sabe se já é caça
Do destino, do sono, sei lá

Mas aí chega um bisneto
E o tal florir da vida
Começa a recomeçar.

Fernanda Atihe, ex-aluna, 2014

Amizade do Passado

Por que é que
Onde a minha memória pousa
Você pousa junto?
Acredito que
Em outra encarnação
Você tenha sido minha mãe
Ou coisa do tipo
Uma entidade protetora
Proliferadora
Percursiva
Professora

Mas que saudade!
E nem precisa passar
Você não sai da minha mente
E não está em nenhum lugar.

 Fernanda Atihe, ex-aluna, 2014

Cigana, dissimulada

Mais um dia
Como qualquer outro
Sentado, esperando-te
Como se nada mais importasse

Algo me puxa
Me seguro à cadeira
Tarde demais
Já estou a deriva

Estou me afogando
E quanto mais me afogo
Mais e mais quero ficar no mar
E mais e mais te quero
E mais e mais me perco
E mais e mais sou puxado
E mais e mais me afogo,
Como um marinheiro
Seduzido pela sua sereia.

Uma última tentativa de respirar
Em meio a agitação do mar
Chego ao ar
Puxo-o como se fosse o ultimo

“Você está bem?”

Me encaras
Preocupada com minha súbita respiração
Olhos fixos nos meus,
Presos um ao outro.
Os teus, a alguém que apenas gostas
Os meus, a alguém que amo,
A ponto de afogar-me
Em teus olhos de ressaca.

Marshall – ex-aluno, 2014

Eterna meninice

Fronhas, toalhas, sujas de rímel
Que eu marco, territorial,
Na minha jornada que (imagina)
Nunca nem começou, é imemorial
Ao topo da mais alta colina
Que eu subo, com meu cão-guia
Soleníssimo sr. Cão-Guia
Que acho que parece eu
Mas não sei, de fato
Pois minha visão morreu
Quando nasci
E se todo mundo é cego
Ninguém me revela
Que a colina é plana
E que eu seguro uma vela
E minha imaginação segura a chama.

Fernanda Atihe, ex-aluna, 2014

Esses olhos

Esses olhos
Como podem…
Não consigo evitá-los
Não consigo confrontá-los
Apenas me consomem

Consomem-me
Como fogo intenso
Sem deixar vestígios
Do atentado contra mim.

Sim, tentado
Tentado a segurar-te
Tentado a amar-te
Tentado por essa tentação
Que são teus olhos.

Sim, teus olhos,
A materialização da minha perdição,
Preso, sem esperanças, enlaçado
Como um cordeiro para o abate.

Bate, e forte,
Meu coração, toda vez que te vê
Toda vez que finalmente encontra
Teus olhos em meio a multidão,
Como uma ligação intensa,
Tensa
Imensa
Da qual não ouso querer sair.

Sair da sua influência…
Como? Não faço ideia…
Apenas espero que esta hipnose
Não seja apenas para me fazer sofrer
Apenas por prazer
Prazer de controlar-me.

Marshall – ex-aluno, 2014

Dom Prisioneiro

Como podes, Capitu?
Após enfeitiçar-me
Após arrastar-me com seus olhos de ressaca
Me fazer tão miserável?

O que faço eu agora?
Sem saber como te esquecer, Lisbella.
Bela maneira de condenar-me
À prisão perpetua
Indefinidamente te querendo ficar.

Simplesmente vou,
Sem rumo, pensando em ti
Até que Morfeu me aceite em seus domínios
Para que possa viver um novo amor
O teu…

Marshall – ex-aluno, 2014

Sapatilhas

Quando eu era pequena eu não gostava de balé. Achava chato.

Quando grande comecei a ver como eu queria ser uma bailarina. Achava lindo

Quando velha vi que todos tentamos ser bailarinas. Tentamos ser majestosos e lindos, comover sendo comovidos, ser um sucesso. Para alguns simplesmente chato, mas quando atenção é dada, vemos beleza. E quando conhecimento é adquirido vemos dor e sofrimento escondidos por simplicidade e luta sobre a delicadeza da dança.

Ana Clara Melo, ex-aluna (turma 2013)