Conto do metrô

Na Sé, Socorro acabou de entrar no vagão. Agora, já não resta mais nenhuma baldeação até seu destino e a mulher já pode descansar. Suas fortes panturrilhas doem por conta das horas de trabalho na faxina e ter achado aquele assento livre quase fez valer a pena seu atraso para sair do trabalho. A xepa já está quase no fim e os vagões ainda quase cheios. Socorro saca seu celular, não por estar entediada pois sempre foi muito paciente, mas pela simples necessidade de matar as saudades de seus meninos. Faz 12 horas que deixou o mais novo na escola. Enquanto revisita as fotos dos filhos, tira os olhos do celular para dar uma pequena olhada na linda jovem sentada ao seu lado, a menina não demonstra expressão nenhuma, parece estar imersa no mundo de seu fone de ouvido. Vira os olhos para o velho de chapéu na sua frente e este também está ausente e imóvel. Em meio a calmaria do vagão, Socorro passa os olhos pelos seus passageiros e repara que estão todos parados. Extremamente parados. A mulher levanta lentamente e caminha entre aqueles corpos, todos paralisados, congelados em suas posições, uns diante do celular, outros de olhos fechados ou contemplando o teto. Socorro cutuca as pessoas e de ninguém recebe resposta. Senhor? Senhora? Nem piscar, piscam. Seus pés e mãos estão firmes no chão e nas barras de metal. Antes de gritar com alguém, a faxineira percebe que desde que entrou no vagão, o trem não parou em nenhuma estação. Tomara que ele pare pelo menos na sua, já que é a última. Socorro olha para o relógio do vagão e este ainda funciona normalmente. Ela volta para os bonecos diante de si e toca em seus corpos, buscando sinais de vida. Suas peles ainda estão quentes e seus corações ainda batem. Socorro verifica se o seu ainda funciona e fica aliviada por um momento. Ela fita o relógio e vê os minutos passarem. 20. 40. Só consegue pensar nos seus filhos. O túnel já não tem mais fim e o trem já não tem mais destino. Ela tenta ver algo pela janela, mas só consegue enxergar as paredes cinza escuro de concreto passando rapidamente pelos seus olhos. Meu Senhor Jesus Cristo! Seu grito é o primeiro som a ser escutado além do ruído do trem, do atrito das rodas com os trilhos e do chacoalhar das carcaças dos vagões. O barulho constante vai aumentando de volume e tomando conta dos ouvidos da mulher. Ela não ouve mais nem sua própria voz. Socorro lembra novamente do desamparo de seus filhos. O que farão sem ela? Como conseguirão dinheiro? Não queria que Jonas começasse a trabalhar tão cedo. A mulher olha para o relógio/calendário nos painéis do vagão e vê passar um dia. Dois. Um mês. Dois. O trem continua em seu trajeto infinito, correndo sem rumo até a eternidade. Socorro já não sente nada, nem mais raiva de seus companheiros por não respondê-la, nem mais o calor de seu próprio corpo, nem mais o bater de seu coração, nem mais saudade de seus meninos. E sem, em nenhum momento, se questionar do porquê de tudo isso, Socorro segue de Metrô a lugar nenhum.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)

Um pouco de possível

Um pouco de possível,
Para que eu possa respirar.

Um pouco de possível,
Para que eu não sufoque.

Um pouco de possível,
Para que eu possa sentir.

Um pouco de possível,
Para que eu continue a sentir e,

Um pouco de possível,
Para que de impossíveis e do impossível,
Faça esse ser
O possível.

Tiago C. Botelho, ex-aluno (2015)

————————————————————
Devo acrescentar como adendo a quem possa interessar que parte desse poema toma emprestada uma frase de Gilles Deleuze – filósofo francês – acerca de seu amigo e também filósofo, Michel Foucault: “Um pouco de possível, senão eu sufoco…”

Jornada

Mais um capítulo de sua jornada se encerrava.
O viajante, em eterna busca pelo conhecimento,
sabia que já era hora de seguir um novo rumo.

Lembrou-se de seus sábios e bondosos mestres,
que outrora lhe impunham obstáculos
e, no final, seguravam-lhe a mão e diziam,
“tu já és um vencedor”.

Lembrou-se de seus brilhantes colegas,
que outrora lutaram ao seu lado contra os desafios,
e, no final, abraçavam-no e diziam,
“nós ver-nos-emos novamente”.

E agora estava vencida a derradeira batalha.
O viajante despediu-se dos companheiros,
aqueles que o ajudaram a chegar até ali
e que doravante trilhariam seus próprios caminhos.

Respirou fundo, fez uma prece a Minerva.

Preparado para seguir seu novo rumo,
o viajante, em eterna busca pelo conhecimento,
iniciava mais um capítulo de sua jornada.

Marilia El Kadre, ex-aluna 2015

Que tipo de mulher você é?

Me perguntaram que tipo de mulher eu sou. Sou, às vezes, muitas em apenas uma. Outras vezes, sou um quarto. Um terço. Metade. Às vezes, sou ninguém. Sou zero. Às vezes, sou constante. E, às vezes, sou uma surpresa. Sanidade e, às vezes, loucura. Às vezes, sou inquilina e, outras, hospedeira. Às vezes, sou ele, toda ele. Outras, sou qualquer uma que passar na rua. Às vezes, sussurro e, às vezes, escandalizo. Eu sou as vezes. Cada vez, uma a uma. Às vezes sou eu. Quantas vezes eu quiser. Poder para ser às vezes. Mas só às vezes.

Beatriz Girardi Langella, ex-aluna 2015

Amor à primeira página

Ei, você! Você que está olhando atentamente pra essas palavrinhas escritas. NÃO VIRE A PÁGINA (se por acaso estiver lendo em um aparelho digital ou no computador, esses locais que não têm exatamente páginas, então: não pule esse pedaço)!
Para de tentar olhar pros lados, é com você que eu estou falando. Isso mesmo, você. Esse ser de dois olhos, uma boca, um nariz, etc etc etc. Eu queria dizer que desde que te vi lendo o conto de início desse livro me apaixonei.
Calma, calma. Não vai embora. Juro que não sou um personagem louco. Quer dizer, eu sou louco de amores por você, mas isso não vem ao caso. Pensando bem, vem super ao caso. Eu não consigo dormir, não consigo comer, não consigo fazer nada. Tá, eu sei que não sou exatamente físico e que já não faço essas coisas, mas me deixa falar! Eu sinto como se esse texto não tivesse lógica e como se palavras as estivessem sentido perdendo, banana elefante candelabro mauri shabek ahenslbwk….
Aí meu Deus, eu perdi o fio da meada… Desculpa, é que, quando me dirijo a você, parece que me embolo todo, não sei o que fazer! É tanta coisa para dizer, cada sentimento mais misturado que o outro…
Você é o ser mais lindo que eu já vi. Esse seu jeitinho sério, tão concentrado, tão impagável de se ver. A sua voz, ah! a sua voz, lendo os trechinhos alto é tão apaixonante. Os seus olhos seguindo cada frasezinha. Você rindo com as piadinhas sem graças. Foi amor à primeira página!
Eu quero te fazer feliz. Quero te fazer sorrir mesmo quando você não estiver lendo as crônicas idiotas que essa autora vive escrevendo. Quero viver ao seu lado, para nós sermos palavra misturada com matéria e lervarmos poesia e encanto pro nosso dia a dia.
A gente pode se completar. Passar as tardes nas livrarias só espalhando amor por todos os lados. Fica aqui comigo, não fecha esse livro não.

Larissa Nitta, ex-aluna (2015)

Éden

Quem você acha que é
pra dizer
quem eu devo ou não amar?

Quem você acha que é
pra achar
Que deve me dizer
Como eu devo ou não sonhar?
O que eu devo cantar
e trajar?
Como devo
escrever,
sentar,
pensar?

O que te aconteceu
pra achar
Que você sou eu?
O que deu
na sua cabeça,
Pra achar que você pode
(ou deve)
Contar a minha história?
Por mim.
Já que a sua não teve glória,
Sua vaga memória
te assombra até ao fim.

Pedaços de vida que você achou
espalhados no chão,
Porque você esqueceu de segurá-los.
Agora você aponta
Para as minhas mãos e meus calos
E diz que as minhas marcas são profanas.
E me condena.
Me envenena.
Com seu veneno fraco,
seu placebo opaco
Na esperança de que eu me contamine
Na loucura da sua sobriedade fajuta,
Que nunca viu nada além da fruta.

A fruta é seu maior pecado,
E enches o peito pra dizer
(em seu manifesto)
Que, até na hora de pecar,
pecas que nem o resto.
Esse sempre foi o seu pecado:
Viver às custas de um livro sagrado.
Achar que os seus erros serão perdoados
em versículos.
E que sua vida está definida
em parágrafos já escritos.

Pois saiba de uma coisa
Eu já comi a fruta 7 vezes (só hoje)
Uma para cada pecado capital.
Só para lembrar da minha repulsa
ao seu conceito de moral.
Porque é o meu vício: te contrariar.
E poder esfregar na sua pele,
ressecada de bênçãos e ilusões,
Em alto-relevo
O prazer de saber que, os parágrafos da minha vida,
Sou eu quem escrevo.

Assinado: Eu mesmo (e mais ninguém).

Victor Zequi, ex-aluno (2015)

Justiça dos injustiçados

Temos plena liberdade
Para escolher nossos limites.
E pleno conhecimento
De que somos alienados.

Talvez estejamos fartos
De toda essa fome.
Já que morremos um pouco cada dia,
Para garantir nossa sobrevivência.

É tempo de nós brasileiros.
Descorrompermos os corruptos.
Começando por nós mesmos.

E finalmente perceber
Que reclamamos de muitas coisas
E esquecemos que também somos parte do problema.

Fernando Lazar, ex-aluno (2015)

Esquecimento

Gosto muito de ti e te odeio ao mesmo tempo. Queria estar ao seu lado e o mais longe possível. Queria passar horas conversando com você, mas se te encontrasse agora não abriria a boca. A verdade é não sou boa de esquecer. Não consigo esquecer. Quanto mais tento, mais lembro. Talvez devesse ser uma coisa natural, mas eu queria poder forçá-la. Queria esquecer tão facilmente quanto fui esquecida. Queria esquecer pra nunca mais lembrar. Queria esquecer que se me perguntassem quem você era eu não saberia responder. Queria esquecer da sua face. Queria esquecer que um dia alguém te apresentou pra mim. Queria esquecer que um dia começamos a conversar. Queria que todas aquelas marcas que você deixou em mim fossem apagadas. Eu quero esquecer mas fico lembrando das nossas conversas que eu só queria apagar da minha mente. Eu quero esquecer mas lembro dos abraços. Eu quero esquecer mas lembro das risadas. Quero que tudo isso caia no esquecimento. Quero que isso caia num buraco tão profundo quanto o poço em que cai.

Vitória Flosi, ex-aluna (2015)

A Grande Besta

… e pela sua boca, começamos a adentrar A Grande Besta; eu e mais dois bravos companheiros, munidos apenas de uma simples tocha.

Sua língua era de um cinza escuro, feito pixe ainda pouco seco, que grudava um pouco em nossos sapatos, mas este era o menor de nossos problemas. Era possível sentir que Ela cuspia uma leve fumaça, daquelas que de primeira não causa efeito nenhum, mas que aos poucos consome o corpo em mal estar e falta de ar.

Durante todo o percurso, a Besta rugia. Nada muito alto, era como um ronronar sem fim, um ruido de atrito constante. Era um som dificil de explicar – admito eu – quase como se Seu corpo inteiro vibrasse e fosse possível ouvir o leve, porém infinito, movimento de suas partículas.

Dentro da Besta não havia silêncio.

Ao entrarmos pela boca de Seu estômago, a fumaça já havia tomado conta de nossos pulmões e em meio a nossa caminhada, que se tornava cada vez mais lenta, já conseguíamos ver as pessoas devoradas por Ela, loucos, órfãos e mendigos. Porém, quanto mais adentrávamos aquela fera, mais conseguíamos ver as pessoas de que Ela realmente se alimentava, ver a energia de suas vidas, de seus trabalhos e atividades que, sugadas por Ela, mantinham-Lhe viva.

Finalmente, ao chegarmos nas tripas daquele gigante monstro de pedra podíamos ver de onde vinha toda aquela fumaça. Era da labuta incessante, da ganância insaciável do Homem, possuindo tudo, feito buraco negro, e somadas ao seu egoísmo, os sucumbia, os transformando em escravos que fomentavam sem parar as fornalhas do consumo desenfreado. Todo esse desespero, para quando o serviço acabar e suas vidas perderem utilidade, os miseráveis serem digeridos por essa assustadora Besta chamada São Paulo.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)

Tradução simultânea

Me conheceu e me disse rélou
E sua roupa exalava ô-di-parfã
E íamos aos bistrôs
E comíamos fuá-grá
E balançávamos ao som dos bítols e dos stones
Nos nait-clãbs e virávamos
martinis e blãdi-méris nos répi-áuers
E ríamos um riso frouxo com as  piadas rasas dos talk shows e
íamos aos blues às sextas-feiras e
íamos às exposições de art-nuvô e fingíamos sorrir
maravilhados

Mas arte pra mim é tarsila e portinari
e só bebo caipirinha e breja
e não há nada como dançar eme-pê-bê
nas baladas da cidade
e me disse: bái-bái?
eu lhe disse: adeus!

E se a língua do amor é universal,
prefiro algum que também fale português

Mário Neto, ex-aluno, 2015