A hipóteses da descendência de Narciso

Muito se fala no mito de Narciso. Na narrativa mítica, esse belo jovem se afoga em um lago em uma tentativa impossível de alcançar a sua imagem refletida na água. O homo sapiens, principalmente na contemporaneidade, aparenta trilhar o mesmo caminho de Narciso, induzindo à elaboração de duas questões: poderiam os humanos ser descendentes de Narciso e conseguirão eles chegar ao seu nível de auto-idolatria?

Uma analogia pode ser feita entre Narciso e os seres humanos: ao passo que Narciso admira a sua imagem refletida na água, os homens contemplam suas imagens refletidas na sociedade. Essa última reflexão pode ser também chamada de “julgamento público” e é baseada em padrões estabelecidos pela sociedade, como preconceitos. Tal diferença no agente refletor é o suficiente para tornar o amor próprio em desprezo próprio, o que acontece porque a adequação do caráter e corpo de um indivíduo ao que é considerado ideal nem sempre é possível, ou frustra seus desejos pessoais e lhe provoca a insanidade. É possível concluir, portanto, que o gene da auto-idolatria de Narciso teve seu fenótipo alterado pelo meio (e ironicamente para o oposto).

Sendo a auto-idolatria substituída pelo desprezo próprio, o homo sapiens inicia sua renovação: a reconstrução de seu corpo e de sua personalidade. O convencional para os homens jovens é usar anabolizantes e adquirir tatuagens, enquanto para as mulheres é a aplicação e silicone para aumentar o seio, a lipoaspiração e o intenso uso diário de maquiagem. Nota-se que todas as mudanças visam a intensificar (Obs.: visam, nesse caso, é VTI e exige preposição) as características sexuais secundárias, pois contentar-se com a dose hormonal natural de seu próprio organismo é um “luxo”. Há também um terceiro tipo: os hipócritas. Esses são aqueles que procuram se afastar o máximo possível dos padrões estabelecidos, supostamente uma forma de mostrar que a opinião pública lhes é desprezível, e, então, saem à rua ansiosos pela reação do público.

Narciso chora em seu túmulo aquático. Chora pelos humanos, seus descendentes, que possuem a capacidade de converter todo o amor, inclusive aquele a si mesmos, em ódio. Nunca um parente lhe pareceu tão distante.

Adriano Nishinari, 3B1

Garo(t)a em SP

Vivo em um mundo de tanta coisa compartilhada:
fotos, vídeos sobre o tudo e o nada
que não entendi a cara de assombrada
que ela fez
quando despretensiosamente estendi meu guarda-chuva,
nem o sorriso que ela me deu por conta daquele gesto cortês
como se estivesse em um conto de fadas e fosse uma principessa numa floresta encantada
Que nada!

Estava na cidade-concreto mesmo.

Era apenas uma garota em SP.

Natália, 3B1

Mosaico humano

Corto meus braços e minhas pernas
Pois são herança de meu pai.
Retiro meus olhos e minha personalidade
Porque vieram de minha mãe.

Arranco meus cabelos
Já que são iguais aos de minha avó.
Tiro meu temperamento
Uma vez que foi meu vô que me deu.

Minha alma também não me pertence
Já que está foi uma mistura
De minha genética com a vontade de Deus.

No final analiso o que sobrou e não encontro nada.
No final, só sou uma mistura de partes.
No final, sou só um mosaico humano

Fernando Lazar, 3B1