Vencedores do Concurso Fernando Pessoa – 2017: primeiro colocado: “Multilateralismo contemporâneo”, Felipe Akio Nakamura, 3E1

É com imenso prazer que, após tantos e maravilhosos textos enviados, conseguimos, tarefa ingrata!, escolher os três vencedores do Concurso Fernando Pessoa, edição de 2017. Parabéns aos vencedores e a todos os participantes (que também serão publicados em breve). Aproveitem a deliciosa leitura.

Equipe Palavrarte e Equipe de Português

Multilateralismo contemporâneo

 

Ó telas de LED azul, ó teclas misteriosas, tec-tec-tec eterno!

Admiração incontrolável às redes invisíveis!

Redes que tanto tentam tecer um triste apego.

Eh-lá-hô aplicativos sugadores de tempo!

Eh-lá-hô capital em movimento!

Eh-lá-hô renovações transparentes!

Máquinas que se encontram nas ruas e nas casas e nas escolas,

Dominando, possuindo, divertindo, iluminando, entretendo,

Fazendo-me um escravo de ninguém.

Por todo lugar e espaço sempre ela está,

Mais possessiva do que uma mulher bela que não se trai,

Que se afastando têm-se uma ânsia eterna!

Vem sentar-se comigo, maçã sem sabores, à beira da torre de Wi-Fi.

Sossegadamente observemos sua grandiosidade e aprendamos

Que o indivíduo nada passa de um elétron entre fios condutores,

Insignificante seguindo o plano do Fado.

Conversemos sem demasiadas emoções e sentimentalismos.

Sem aplicativos, nem jogos, nem ligações que levantam a voz,

Nem contatos, porque se os tivesse a bateria sempre se desgastaria,

E sempre iria ter à escuridão.

Teclar é a eterna racionalidade…

Uma vida plena é vivida na inocência,

E a única inocência é não teclar…

O maníaco é um poeta

Poeta sem certa cara

Que não tem meta concreta

Nem possui mente clara.

 

Felipe Akio Nakamura, 3E1

Vencedores do Concurso Fernando Pessoa – 2017: segundo colocado: “Ilustre Tertúlia em Condições de Brasilidade e Heteronomia”, Mauro Simas Neto, 3E1

É com imenso prazer que, após tantos e maravilhosos textos enviados, conseguimos, tarefa ingrata!, escolher os três vencedores do Concurso Fernando Pessoa, edição de 2017. Parabéns aos vencedores e a todos os participantes (que também serão publicados em breve). Aproveitem a deliciosa leitura.

Equipe Palavrarte e Equipe de Português

Ilustre Tertúlia em Condições de Brasilidade e Heteronomia

Era uma frígida tarde invernal daquele fatídico ano de 1942. Com minhas já desgastadas vestes de viajante tentava em vão escapar da fúria dos elementos. Trovoadas rugiam ao longe e lembravam-me dos canhões que naquele momento deviam castigar terras não tão distantes em nome da futilidade humana. Parei sobre o abrigo de um toldo e por um breve momento direcionei minha vista para a cidade fustigada pela incansável tempestade em um terrível duelo entre civilização e natureza. Lisboa, mesmo sob tão desfavoráveis condições, resplandecia com sua beleza atemporal. Um lugar hostil a princípio às concepções que trazia de minha pátria brasileira, mas que acabei por naturalizar. Portugal, uma nação com um destino tão infeliz, ainda assim era infinitamente afortunada por ser um dos últimos refúgios da destruição que assolava a Europa. Alvo de uma rajada de vento particularmente cortante, voltei ao mundo concreto e nesse momento que avistei um café mais afrente na deserta ruela. Ao aproximar-me a passos largos, pude ler a convidativa inscrição: “A Brazileira”. Meus pensamentos voltaram a meus tempos de infância na enevoada São Paulo, antes de eu decidir aventurar-me por terras além-mar. Muito mudou desde então. A solitária cidade que havia conhecido agora se movia freneticamente sob os ritmos da modernidade.  Getúlio Vargas governava o amado país com mão de ferro, não muito diferente do ditador português com quem me habituara. Triste época para homens que ansiavam pela liberdade! Decidi por buscar abrigo naquele estabelecimento que trazia tantas memórias boas. Ao adentrar, logo o notei por um requintado café, lugar de reunião de notáveis, e não hesitei em ajuntar-me a um cavalheiro de faustas vestimentas que desfrutava a bebida de minha terra no imponente balcão.                                                                                                                                             – Minhas mais nobres saudações, egrégio senhor! – ele prontamente me saudou – Zeus está insaciável em seu furor celeste: Foste vítima desse caos elementar, eu infelizmente vejo.                                                                                                                    -De fato, ilustre! – respondi. Notava vagamente na fraca iluminação um semblante altivo e que estranhamente inspirava serenidade – O clima hostil não me poupou! Enquanto tirava meu ensopado sobretudo, introduzi-me ao desconhecido.  Ele logo me reconheceu como um habitante do Novo Mundo.                                                   – O onipotente Fado conduz-nos, meras folhas ao vento, a essas inexplicáveis coincidências. Aqui estou eu, bebendo o fruto do labor de vosso povo no café que leva o nome de vossa terra.                                                                                                                          -E ainda assim, indivíduos tão diferentes, unidos pelo Destino como dizes, conseguem interagir positivamente, confeccionar laços fraternais, identificar-se como seres humanos! Creio que esse seja o maior bem provindo da civilização humana, da vida em sociedade!                                                                                                                          Embebido na fascinante conversa, não notei um vulto que chegava ao balcão e que não tardou em pronunciar-se:                                                                                                                   -Sim, a civilização… Já a exaltei outrora, a beleza moderna, a eficiência               fabril, a supremacia das máquinas! Tudo em vão… A real questão nunca resolvi. A verdade é que não consigo sequer encontrar o meu verdadeiro eu, pior, sou um insignificante grão de areia em uma praia inteira… E pensando nisso, não vivo.                                                -A triste realidade humana é essa, meu caro – afirmou meu primeiro interlocutor – somos seres pensantes, mas a solução para isso é fácil: basta focarmos no presente, nos prazeres momentâneos, que a vida não é eterna. Filosofes sobre esses assuntos e desassossegar-te-ás inutilmente. Contenhas esses impulsos pensantes, aceites o Fado e vivas cada instante como se fosse o último.                    -Um complicado problema! – conclui humildemente e, enquanto cumprimentava o novo personagem, continuei – Ilustre, quando me referi à civilização estava pensando na ideia de coletividade, mas a sua perspectiva tecnológica também é bem discutível. É nela, pois, que se encaixa o horror da guerra atual!                             – O resultado conspícuo do desequilíbrio que reina no pensamento dos homens nesses tristes tempos. É no passado, época de glória e prosperidade, que devemos nos espelhar. – retrucou o homem com quem havia inicialmente me encontrado.                              – Ricardo, não posso admitir que o passado seja a solução. A humanidade sempre sofreu com os conflitos bélicos. – asseverou o segundo cavalheiro- A tecnologia pode os ter feito mais destrutivos, mas não é a causa deles continuarem a nos atormentar!                                                                                                                                      – Creio que a única solução seja uma nova mentalidade mundial que preze pela paz, não há outra forma! – exclamei exaltado.                                                                                      Nesse derradeiro momento, um terceiro homem vestido humildemente aproximou-se de nós. Com um quê de ares bucólicos, lembrava-me os poetas antigos, um árcade perdido, quem sabe? Mas o mais intrigante era seu ar de sabedoria, alheio a tudo que já havia visto na civilização humana. Ó céus, era impossível rotular tal homem! Ele transcendia toda e qualquer definição de homem moderno. Oras, estava diante do primordial, do ser humano como veio ao mundo, sem preceitos ou filosofias!           – Mestre, meu mestre! Ilumine-nos em nosso dilema! Sobre guerra e paz, o que fazer?- indagou o homem vítima da modernidade                                                                          – Meus amigos, não há nada o que fazer a não ser fazer nada. A guerra é resultado do pensar. Sem o pensar sobre ela, não há guerra.  Se os homens soubessem a apenas ver e ouvir, todos os conflitos cessariam. Discussões sobre a paz mundial só têm efeito reverso, só essa sabedoria bastaria. É disso que necessitamos: não de infrutíferas reflexões, mas sim de um pensar em não pensar.                                                  Pasmo com uma resposta tão simples, mas tão verdadeira, finalmente me apercebi que a chuva já havia abrandado e que já eram horas de seguir para meu destino original. Despedi-me das peculiares figuras e ausentei-me sem maiores reflexões. Foram só anos mais tarde que lembrando do memorável ocorrido notei o agora óbvio. Oras, eram os heterônimos do ecúmeno e inesquecível mestre literário, Fernando Pessoa! Inexplicável do inexplicável! Com essa eternal dúvida, só me resta perpetuar esse conto, quer seja fruto da minha imaginação ou joguete do Destino…

Mauro Simas Neto, 3E1

Para uma menina triste chorando

“Poesia é brincar com as palavras” piada também, é fácil, é…?

Por que a galinha atravessou a rua? Não.

Talvez um trocadilho…
Posso forçar um milho…?
Falhei.

O que eu quero de você? Só rir
sorrir.
Clichê.

A verdade é que minha piada chega a ser uma piada ruim
Pois nem ela pode dar graça
a toda sua graciosidade

Humor
um ’mor
hmm, amor?

Pedro D’Angelo, 3E1

Criadores capítulo 1

No princípio criou Camões
Os poetas e a lírica
E viu que era bom;
E assim foi o dia primeiro
No segundo dia Machado desceu
Entre as nuvens poderoso.
Tinha os olhos de ressaca;
E assim foi o dia segundo
No terceiro dia ordenou Pessoa:
“Que se faça o bojador !
Que se faça um navio português !”
E assim foi o dia terceiro
No quarto dia a Bandeira rompeu.
Surgiu um madrigal tão melancólico,
Um porquinho da india brasileiro;
E assim foi o dia quarto
No quinto dia surgiu uma pedra,
Tinha uma pedra no quinto dia…
Criou-se a máquina do Mundo mundo vasto mundo;
E assim foi o dia quinto
No sexto dia o mundo se alegrou !
A rosa mais bonita apareceu…
As veredas surgiram…
E assim foi o dia sexto
No sétimo dia todos descansaram
A pedra sumiu, a rosa murchou.
…Mas valeu a pena ?
E assim foi o dia sétimo

Guilherme Menichelli Peres, 3E1

Confidências exatas de um Bandeirantino

E agora, Bandeirantes?
a festa acabou,
o povo-ôô sumiu.

E aos inocentes que ficaram
deixo um recado
a areia esfriou
o óleo já seco,
desconfortável às costas.

E ao medo que canta
deixo um pedido
trabalhe com alegria,
tenha a prazerosa cárcere.

Não faça da poesia
uma ordem.
Deste gauche autor
um Mandamento.

Eu fui o que você é.

Mas deixo uma promessa
mãos dadas com o Sentimento
são o bastante para, sozinho,
dinamitar as negativas do mundo.

E agora, Bandeirantes?

Felipe London, 3E1

Autoria

Quais são as fronteiras do pensamento? Como definir o pensamento próprio, a autoria, a influência?

O papel das ideologias e discursos no pensamento de cada indivíduo serviu de reflexão – e inspiração – para a palavrartista Roberta Berardo. Tudo surgiu a partir de uma discussão sobre as fronteiras do pensamento, iniciada, em grupo, em uma aula de redação de classe. Cada grupo deveria selecionar ideias, argumentos, exemplos que fundamentassem sua opinião a respeito de alguma das fronteiras (psicológicas, do pensamento, da ciência, da linguagem, etc) apresentadas pela proposta de redação da Fuvest. Em seguida, deveriam definir o modo como gostariam de apresentar à classe as ideias levantadas.

O propósito do trabalho era estimular os alunos a buscarem mais e melhores ideias para fundamentar sua discussão no texto, antes de escrevê-lo. O resultado foi muito satisfatório, mas também, como mostra o poema da Roberta, belo, surpreendente.

Assim, devidamente contextualizado – como se precisasse! – segue “Autoria”, de Roberta Berardo.

Professora Melissa de Matos França Norcia

Sou um ser de opinião,
de crenças, ideologias.
Todas discutidas, defendidas.
Sou eu quem as determina?

Apresento argumentos.
Tese, antítese, síntese.
Falo com autonomia.
Porém, a dúvida fica:

Quando penso, penso?
Reproduzo?
A boca é minha
Mas e o discurso?

Não sei o que é de minha autoria.
Nem sei qual o meu intuito.
Só sei que na verdade,
sou um falante-mudo.

Roberta Berardo, 3E1

Sem título

Digo-lhes que a tristeza é mãe
de toda literatura
Escreveu o primeiro verso o primeiro homem
(É o homem que escreve o verso
ou os versos que escrevem o Homem?)
por estar triste
ou por estar alegre e temer

que chegasse a tristeza.

Pois se estivesse alegre o homem
todo o tempo, sem o que lhe apagasse
o sorriso da face,
não se poria a fazer versos.
Antes passaria todos os dias e todas as noites
a sorrir
a amar
a correr por aí sem ter aonde ir
E não preso a uma folha de papel em branco
a pensar na vida, que não foi feita
pra ser pensada.

Escrever é remendar a vida com poesia
pra ver se disfarça a tristeza
Ou, pelo menos,
se a deixa mais bonita tão bonita,
que dá gosto de dizer:
Essa daí é tristeza minha!

Escrevo minha tristeza em meus poemas
Mas escrevo na areia da praia
Que é pra água do mar levar embora
E minha tristeza durar não mais
que a cheia da maré.

Mário Neto, 3E1

3o. lugar Concurso Fernando Pessoa: Mário Maximino Neto – 3E1

Eu, heterônimo

Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico me vejo só um bocado de mim (…)
Álvaro de Campos

Leem meus versos por toda Lisboa
Por todo canto falam meu nome
Aos quatro ventos os gritos ecoam
“És gênio! És gênio! És mais do que humano!”
Inquieta, minha alma, pequena que é,
foge dos gritos, se esconde da luz.
 

Que vale ser gênio
e louco também?
Que mérito tenho
eu do que escrevo –
se não sou eu, mas partes de mim?
Minha é a mão que segura a pena
O resto é trabalho de mentes alheias,
de outros que habitam dentro de mim.
 

Sou metonímia incompleta
A parte pelo todo.
Mas o todo em mim é nada
As partes pelo nada.
 

Quisera eu tomar um comboio
e partir de Lisboa
para uma aldeia qualquer,
além do Tejo ou além do Bojador.
Partir de meus conhecidos,
e dos meus Eu desconhecidos,
e deixá-los para trás.
Mas o rio de uma aldeia qualquer
é tão grande quanto o Tejo.
E meu Eu lá seria o mesmo.
Seria, ainda, vários.
Seria, ainda, nada.
 

Quisera eu não ter nascido
heterônimo de meus heterônimos,
nascido uma colcha de retalhos
mal remendados,
nascido vários em um,
nascido Frankestein.