Para uma menina triste chorando

“Poesia é brincar com as palavras” piada também, é fácil, é…?

Por que a galinha atravessou a rua? Não.

Talvez um trocadilho…
Posso forçar um milho…?
Falhei.

O que eu quero de você? Só rir
sorrir.
Clichê.

A verdade é que minha piada chega a ser uma piada ruim
Pois nem ela pode dar graça
a toda sua graciosidade

Humor
um ’mor
hmm, amor?

Pedro D’Angelo, 3E1

Criadores capítulo 1

No princípio criou Camões
Os poetas e a lírica
E viu que era bom;
E assim foi o dia primeiro
No segundo dia Machado desceu
Entre as nuvens poderoso.
Tinha os olhos de ressaca;
E assim foi o dia segundo
No terceiro dia ordenou Pessoa:
“Que se faça o bojador !
Que se faça um navio português !”
E assim foi o dia terceiro
No quarto dia a Bandeira rompeu.
Surgiu um madrigal tão melancólico,
Um porquinho da india brasileiro;
E assim foi o dia quarto
No quinto dia surgiu uma pedra,
Tinha uma pedra no quinto dia…
Criou-se a máquina do Mundo mundo vasto mundo;
E assim foi o dia quinto
No sexto dia o mundo se alegrou !
A rosa mais bonita apareceu…
As veredas surgiram…
E assim foi o dia sexto
No sétimo dia todos descansaram
A pedra sumiu, a rosa murchou.
…Mas valeu a pena ?
E assim foi o dia sétimo

Guilherme Menichelli Peres, 3E1

Confidências exatas de um Bandeirantino

E agora, Bandeirantes?
a festa acabou,
o povo-ôô sumiu.

E aos inocentes que ficaram
deixo um recado
a areia esfriou
o óleo já seco,
desconfortável às costas.

E ao medo que canta
deixo um pedido
trabalhe com alegria,
tenha a prazerosa cárcere.

Não faça da poesia
uma ordem.
Deste gauche autor
um Mandamento.

Eu fui o que você é.

Mas deixo uma promessa
mãos dadas com o Sentimento
são o bastante para, sozinho,
dinamitar as negativas do mundo.

E agora, Bandeirantes?

Felipe London, 3E1

Autoria

Quais são as fronteiras do pensamento? Como definir o pensamento próprio, a autoria, a influência?

O papel das ideologias e discursos no pensamento de cada indivíduo serviu de reflexão – e inspiração – para a palavrartista Roberta Berardo. Tudo surgiu a partir de uma discussão sobre as fronteiras do pensamento, iniciada, em grupo, em uma aula de redação de classe. Cada grupo deveria selecionar ideias, argumentos, exemplos que fundamentassem sua opinião a respeito de alguma das fronteiras (psicológicas, do pensamento, da ciência, da linguagem, etc) apresentadas pela proposta de redação da Fuvest. Em seguida, deveriam definir o modo como gostariam de apresentar à classe as ideias levantadas.

O propósito do trabalho era estimular os alunos a buscarem mais e melhores ideias para fundamentar sua discussão no texto, antes de escrevê-lo. O resultado foi muito satisfatório, mas também, como mostra o poema da Roberta, belo, surpreendente.

Assim, devidamente contextualizado – como se precisasse! – segue “Autoria”, de Roberta Berardo.

Professora Melissa de Matos França Norcia

Sou um ser de opinião,
de crenças, ideologias.
Todas discutidas, defendidas.
Sou eu quem as determina?

Apresento argumentos.
Tese, antítese, síntese.
Falo com autonomia.
Porém, a dúvida fica:

Quando penso, penso?
Reproduzo?
A boca é minha
Mas e o discurso?

Não sei o que é de minha autoria.
Nem sei qual o meu intuito.
Só sei que na verdade,
sou um falante-mudo.

Roberta Berardo, 3E1

Sem título

Digo-lhes que a tristeza é mãe
de toda literatura
Escreveu o primeiro verso o primeiro homem
(É o homem que escreve o verso
ou os versos que escrevem o Homem?)
por estar triste
ou por estar alegre e temer

que chegasse a tristeza.

Pois se estivesse alegre o homem
todo o tempo, sem o que lhe apagasse
o sorriso da face,
não se poria a fazer versos.
Antes passaria todos os dias e todas as noites
a sorrir
a amar
a correr por aí sem ter aonde ir
E não preso a uma folha de papel em branco
a pensar na vida, que não foi feita
pra ser pensada.

Escrever é remendar a vida com poesia
pra ver se disfarça a tristeza
Ou, pelo menos,
se a deixa mais bonita tão bonita,
que dá gosto de dizer:
Essa daí é tristeza minha!

Escrevo minha tristeza em meus poemas
Mas escrevo na areia da praia
Que é pra água do mar levar embora
E minha tristeza durar não mais
que a cheia da maré.

Mário Neto, 3E1

3o. lugar Concurso Fernando Pessoa: Mário Maximino Neto – 3E1

Eu, heterônimo

Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico me vejo só um bocado de mim (…)
Álvaro de Campos

Leem meus versos por toda Lisboa
Por todo canto falam meu nome
Aos quatro ventos os gritos ecoam
“És gênio! És gênio! És mais do que humano!”
Inquieta, minha alma, pequena que é,
foge dos gritos, se esconde da luz.
 

Que vale ser gênio
e louco também?
Que mérito tenho
eu do que escrevo –
se não sou eu, mas partes de mim?
Minha é a mão que segura a pena
O resto é trabalho de mentes alheias,
de outros que habitam dentro de mim.
 

Sou metonímia incompleta
A parte pelo todo.
Mas o todo em mim é nada
As partes pelo nada.
 

Quisera eu tomar um comboio
e partir de Lisboa
para uma aldeia qualquer,
além do Tejo ou além do Bojador.
Partir de meus conhecidos,
e dos meus Eu desconhecidos,
e deixá-los para trás.
Mas o rio de uma aldeia qualquer
é tão grande quanto o Tejo.
E meu Eu lá seria o mesmo.
Seria, ainda, vários.
Seria, ainda, nada.
 

Quisera eu não ter nascido
heterônimo de meus heterônimos,
nascido uma colcha de retalhos
mal remendados,
nascido vários em um,
nascido Frankestein.

Leitor!, antes de começar
Façamos um pequeno adendo
Este não é um poema vulgar
Que qualquer um pode sair lendo

Desmedidos esforços empreguei
Na composição destes versos
E risco nenhum correrei
De ter meus leitores dispersos

É necessário leitor exemplar
Para ler obra tão original
Que saiba pelo menos Descartes
Conheça Bacon e Pascal

Ler Pessoa e Machado,
Camões e Vaz de Caminha
Se achas isso um enfado
Não é digno de sequer uma linha!

Minhas sinceras congratulações
Àqueles que ainda me acompanham
São a esperança de suas gerações
Pois em profunda cultura se banham

Outra coisa agora não desejo
A não ser meu poema começar.
Mas que é isso que vejo?
As linhas estão a acabar!

Tua culpa leitor ingrato!
Tua não, mas minha apenas
Procurando o leitor exato
Gastei minha tinta e minhas penas

O que estava eu a pensar?
Quando fui o leitor escolher?
O poema sozinho devia bastar
Para clamar o leitor a o ler

Ah, leitor bondoso, perdoe a mim
Escolhi-te a dedo, com cuidado
Não queria acabar assim
Com um poema inacabado
 
Gust Sil, 3E1

Pre-Post-Mortem

Quando era moço,
Os olhos reluziam, incandescentes,
Como eram as paixões da época.

Hoje, sabe-se lá quantas luas
Já lhe furtaram das lentes
O brilho pueril.

Não mais consegue ver o belo.

As doces primaveras,
Dantes sublimes,
Agora empalidecem com sua amargura,
O rosto melancólico.

E o sorriso,

Chronos levou,

Para si.

Tiago Botelho, 3E1