Canção do Asilo

Velho quando não morre é bicho tosco
Que a morte resiste em abraçar
Velho quando lembra que existe
Não se surpreende com nada
Nem com eclipse
Nem com Iphone
Nem com elipse
Nem bom uso do pronome
Reclama de todos, entende a todos
Boceja, retesa, volta a dormir
E o tempo passa
Ele não sabe se já é caça
Do destino, do sono, sei lá

Mas aí chega um bisneto
E o tal florir da vida
Começa a recomeçar.

Fernanda Atihe, ex-aluna, 2014

Amizade do Passado

Por que é que
Onde a minha memória pousa
Você pousa junto?
Acredito que
Em outra encarnação
Você tenha sido minha mãe
Ou coisa do tipo
Uma entidade protetora
Proliferadora
Percursiva
Professora

Mas que saudade!
E nem precisa passar
Você não sai da minha mente
E não está em nenhum lugar.

 Fernanda Atihe, ex-aluna, 2014

Eterna meninice

Fronhas, toalhas, sujas de rímel
Que eu marco, territorial,
Na minha jornada que (imagina)
Nunca nem começou, é imemorial
Ao topo da mais alta colina
Que eu subo, com meu cão-guia
Soleníssimo sr. Cão-Guia
Que acho que parece eu
Mas não sei, de fato
Pois minha visão morreu
Quando nasci
E se todo mundo é cego
Ninguém me revela
Que a colina é plana
E que eu seguro uma vela
E minha imaginação segura a chama.

Fernanda Atihe, ex-aluna, 2014