Anoitecer

Cada raio de luz
Aos poucos se desfaz
O branco vira vermelho
O vermelho vira azul
E o azul fica negro.
O negro é tão escuro,
Não vejo nada…

Então brilha a lua,
Pálida, solitária.
As estrelas consolam
Seu triste choro,
Brilhando fracas,
Em uníssono com a
Mãe, em vão.

As luzes se apagam,
A cidade dorme.
Vagam à noite
Apenas os fantasmas,
De tempos alegres
E eles festejam
Ao som do jogral embebedado.

Canta o jogral
Sobre as alegrias passadas,
As mulheres amadas,
As dores causadas,
À vida, à morte!
Um brinde ao amor!
Um brinde ao ódio!
Afinal, do que seríamos nós
Sem nossos sentimentos?

E nossos tormentos?
Do que somos feitos,
Além de tormentos?
Que tormentos?
Estamos tão alegres,
E a noite é tão linda…
Tomemos então
Esse delicioso vinho…

E aos poucos,
Tudo fica mais claro e
Volto a enxergar.
O negro volta ao azul,
O azul volta ao vermelho
E o vermelho vira branco
E surgem então os primeiros raios de luz.

Marcelo Victor Nigri, ex-aluno 2016

Cinzas

Abriram a janela do quarto, e lá estava a cama do céu com o mar.

Naquele dia de céu frio, o sol decidiu não aparecer detrás das nuvens.

A única luz era a do farol. Fantasmagórica, seca e cada vez mais distante.

As ondas quebravam relutantemente na madeira gélida do pequeno veleiro a sair sem rumo…

O mundo era frio, a não ser pelo beijo demorado dela, destoante da imensidão cinza de céu e oceano.

Contra a corrente que empurra tudo para um passado fincado em terra firme, os dois seguiam à mercê do vento que espalhava todas as promessas e suspiros pelo alto-mar.

Alto-mar, esse, que todos só sabem que sonham em conhecer após abrirem a janela depois de acordar e lembrarem-se daquilo com o que um dia foi sonho.

Pedro Forbes, ex-aluno, 2015

Conto do metrô

Na Sé, Socorro acabou de entrar no vagão. Agora, já não resta mais nenhuma baldeação até seu destino e a mulher já pode descansar. Suas fortes panturrilhas doem por conta das horas de trabalho na faxina e ter achado aquele assento livre quase fez valer a pena seu atraso para sair do trabalho. A xepa já está quase no fim e os vagões ainda quase cheios. Socorro saca seu celular, não por estar entediada pois sempre foi muito paciente, mas pela simples necessidade de matar as saudades de seus meninos. Faz 12 horas que deixou o mais novo na escola. Enquanto revisita as fotos dos filhos, tira os olhos do celular para dar uma pequena olhada na linda jovem sentada ao seu lado, a menina não demonstra expressão nenhuma, parece estar imersa no mundo de seu fone de ouvido. Vira os olhos para o velho de chapéu na sua frente e este também está ausente e imóvel. Em meio a calmaria do vagão, Socorro passa os olhos pelos seus passageiros e repara que estão todos parados. Extremamente parados. A mulher levanta lentamente e caminha entre aqueles corpos, todos paralisados, congelados em suas posições, uns diante do celular, outros de olhos fechados ou contemplando o teto. Socorro cutuca as pessoas e de ninguém recebe resposta. Senhor? Senhora? Nem piscar, piscam. Seus pés e mãos estão firmes no chão e nas barras de metal. Antes de gritar com alguém, a faxineira percebe que desde que entrou no vagão, o trem não parou em nenhuma estação. Tomara que ele pare pelo menos na sua, já que é a última. Socorro olha para o relógio do vagão e este ainda funciona normalmente. Ela volta para os bonecos diante de si e toca em seus corpos, buscando sinais de vida. Suas peles ainda estão quentes e seus corações ainda batem. Socorro verifica se o seu ainda funciona e fica aliviada por um momento. Ela fita o relógio e vê os minutos passarem. 20. 40. Só consegue pensar nos seus filhos. O túnel já não tem mais fim e o trem já não tem mais destino. Ela tenta ver algo pela janela, mas só consegue enxergar as paredes cinza escuro de concreto passando rapidamente pelos seus olhos. Meu Senhor Jesus Cristo! Seu grito é o primeiro som a ser escutado além do ruído do trem, do atrito das rodas com os trilhos e do chacoalhar das carcaças dos vagões. O barulho constante vai aumentando de volume e tomando conta dos ouvidos da mulher. Ela não ouve mais nem sua própria voz. Socorro lembra novamente do desamparo de seus filhos. O que farão sem ela? Como conseguirão dinheiro? Não queria que Jonas começasse a trabalhar tão cedo. A mulher olha para o relógio/calendário nos painéis do vagão e vê passar um dia. Dois. Um mês. Dois. O trem continua em seu trajeto infinito, correndo sem rumo até a eternidade. Socorro já não sente nada, nem mais raiva de seus companheiros por não respondê-la, nem mais o calor de seu próprio corpo, nem mais o bater de seu coração, nem mais saudade de seus meninos. E sem, em nenhum momento, se questionar do porquê de tudo isso, Socorro segue de Metrô a lugar nenhum.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)

O grito

Cada letra,
Gota de sangue,
Da ferida que macula,
O triste coração.

Se muito escrevo,
Sofro de hemorragia.
Hemorragia causada,
Pela vaidosa solidão.

Perambulam almas, agitadas.
Nada veem,
Apenas caminham,
Presas na tristeza cega.

Falo com elas,
Mas não tenho voz
Toco nelas,
Mas sou feito em gás,
Perfuro elas,
Mas são tão cegas,
Que não sentem a dor.

Eis que caminho,
Com essas palavras
E continuo caindo,
Como uma gota na chuva.

Marcelo V. Nigri, ex-aluno 2016

Um pouco de possível

Um pouco de possível,
Para que eu possa respirar.

Um pouco de possível,
Para que eu não sufoque.

Um pouco de possível,
Para que eu possa sentir.

Um pouco de possível,
Para que eu continue a sentir e,

Um pouco de possível,
Para que de impossíveis e do impossível,
Faça esse ser
O possível.

Tiago C. Botelho, ex-aluno (2015)

————————————————————
Devo acrescentar como adendo a quem possa interessar que parte desse poema toma emprestada uma frase de Gilles Deleuze – filósofo francês – acerca de seu amigo e também filósofo, Michel Foucault: “Um pouco de possível, senão eu sufoco…”

Lua

Eu parei pra ver.
A lua brilhar.
Ela estava me ensinando.
Me fazendo pensar.

De longe, ela vê tudo que acontece aqui.
Deve ser triste.
Triste pelo que eu vi.

Não fala nada, sinal de sabedoria.
O que ela faz?
Ela brilha.

Mesmo triste.
Ela aparece.
Vem me dizer.
Que o amor cresce.

E nesse momento.
A tristeza partia.
E a lua?
A lua brilha.

Arthur Ribeiro, ex-aluno, 2014

Éden

Quem você acha que é
pra dizer
quem eu devo ou não amar?

Quem você acha que é
pra achar
Que deve me dizer
Como eu devo ou não sonhar?
O que eu devo cantar
e trajar?
Como devo
escrever,
sentar,
pensar?

O que te aconteceu
pra achar
Que você sou eu?
O que deu
na sua cabeça,
Pra achar que você pode
(ou deve)
Contar a minha história?
Por mim.
Já que a sua não teve glória,
Sua vaga memória
te assombra até ao fim.

Pedaços de vida que você achou
espalhados no chão,
Porque você esqueceu de segurá-los.
Agora você aponta
Para as minhas mãos e meus calos
E diz que as minhas marcas são profanas.
E me condena.
Me envenena.
Com seu veneno fraco,
seu placebo opaco
Na esperança de que eu me contamine
Na loucura da sua sobriedade fajuta,
Que nunca viu nada além da fruta.

A fruta é seu maior pecado,
E enches o peito pra dizer
(em seu manifesto)
Que, até na hora de pecar,
pecas que nem o resto.
Esse sempre foi o seu pecado:
Viver às custas de um livro sagrado.
Achar que os seus erros serão perdoados
em versículos.
E que sua vida está definida
em parágrafos já escritos.

Pois saiba de uma coisa
Eu já comi a fruta 7 vezes (só hoje)
Uma para cada pecado capital.
Só para lembrar da minha repulsa
ao seu conceito de moral.
Porque é o meu vício: te contrariar.
E poder esfregar na sua pele,
ressecada de bênçãos e ilusões,
Em alto-relevo
O prazer de saber que, os parágrafos da minha vida,
Sou eu quem escrevo.

Assinado: Eu mesmo (e mais ninguém).

Victor Zequi, ex-aluno (2015)

Justiça dos injustiçados

Temos plena liberdade
Para escolher nossos limites.
E pleno conhecimento
De que somos alienados.

Talvez estejamos fartos
De toda essa fome.
Já que morremos um pouco cada dia,
Para garantir nossa sobrevivência.

É tempo de nós brasileiros.
Descorrompermos os corruptos.
Começando por nós mesmos.

E finalmente perceber
Que reclamamos de muitas coisas
E esquecemos que também somos parte do problema.

Fernando Lazar, ex-aluno (2015)

A Grande Besta

… e pela sua boca, começamos a adentrar A Grande Besta; eu e mais dois bravos companheiros, munidos apenas de uma simples tocha.

Sua língua era de um cinza escuro, feito pixe ainda pouco seco, que grudava um pouco em nossos sapatos, mas este era o menor de nossos problemas. Era possível sentir que Ela cuspia uma leve fumaça, daquelas que de primeira não causa efeito nenhum, mas que aos poucos consome o corpo em mal estar e falta de ar.

Durante todo o percurso, a Besta rugia. Nada muito alto, era como um ronronar sem fim, um ruido de atrito constante. Era um som dificil de explicar – admito eu – quase como se Seu corpo inteiro vibrasse e fosse possível ouvir o leve, porém infinito, movimento de suas partículas.

Dentro da Besta não havia silêncio.

Ao entrarmos pela boca de Seu estômago, a fumaça já havia tomado conta de nossos pulmões e em meio a nossa caminhada, que se tornava cada vez mais lenta, já conseguíamos ver as pessoas devoradas por Ela, loucos, órfãos e mendigos. Porém, quanto mais adentrávamos aquela fera, mais conseguíamos ver as pessoas de que Ela realmente se alimentava, ver a energia de suas vidas, de seus trabalhos e atividades que, sugadas por Ela, mantinham-Lhe viva.

Finalmente, ao chegarmos nas tripas daquele gigante monstro de pedra podíamos ver de onde vinha toda aquela fumaça. Era da labuta incessante, da ganância insaciável do Homem, possuindo tudo, feito buraco negro, e somadas ao seu egoísmo, os sucumbia, os transformando em escravos que fomentavam sem parar as fornalhas do consumo desenfreado. Todo esse desespero, para quando o serviço acabar e suas vidas perderem utilidade, os miseráveis serem digeridos por essa assustadora Besta chamada São Paulo.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)

Tradução simultânea

Me conheceu e me disse rélou
E sua roupa exalava ô-di-parfã
E íamos aos bistrôs
E comíamos fuá-grá
E balançávamos ao som dos bítols e dos stones
Nos nait-clãbs e virávamos
martinis e blãdi-méris nos répi-áuers
E ríamos um riso frouxo com as  piadas rasas dos talk shows e
íamos aos blues às sextas-feiras e
íamos às exposições de art-nuvô e fingíamos sorrir
maravilhados

Mas arte pra mim é tarsila e portinari
e só bebo caipirinha e breja
e não há nada como dançar eme-pê-bê
nas baladas da cidade
e me disse: bái-bái?
eu lhe disse: adeus!

E se a língua do amor é universal,
prefiro algum que também fale português

Mário Neto, ex-aluno, 2015