Esquecimento

Gosto muito de ti e te odeio ao mesmo tempo. Queria estar ao seu lado e o mais longe possível. Queria passar horas conversando com você, mas se te encontrasse agora não abriria a boca. A verdade é não sou boa de esquecer. Não consigo esquecer. Quanto mais tento, mais lembro. Talvez devesse ser uma coisa natural, mas eu queria poder forçá-la. Queria esquecer tão facilmente quanto fui esquecida. Queria esquecer pra nunca mais lembrar. Queria esquecer que se me perguntassem quem você era eu não saberia responder. Queria esquecer da sua face. Queria esquecer que um dia alguém te apresentou pra mim. Queria esquecer que um dia começamos a conversar. Queria que todas aquelas marcas que você deixou em mim fossem apagadas. Eu quero esquecer mas fico lembrando das nossas conversas que eu só queria apagar da minha mente. Eu quero esquecer mas lembro dos abraços. Eu quero esquecer mas lembro das risadas. Quero que tudo isso caia no esquecimento. Quero que isso caia num buraco tão profundo quanto o poço em que cai.

Vitória Flosi, ex-aluna (2015)

Farol

Estamos num farol
Um farol fixado numa pedra
Uma pedra que se encontra em alto mar

Todos os dias,
Desde que possa lembrar
Vemos as ondas batendo em nosso farol
Vemos o farol sendo destruído pelo mar

E todos os dias
Voltamos nosso olhar
Para o destruidor de nosso lar
Como se nossos olhos tivessem poder
Poder de parar as ondas
Poder de parar o mar

E todos os dias esperamos
Esperamos que o farol desabe
Porque de nós mesmos
Já não esperamos nada

Já não esperamos a terra firme
Já não esperamos o fim das ondas
Não esperamos nada
Porque tudo depende de nós

Vitória Flosi, 3B2

Ludíbrio

Você vive numa loucura. Num campo onde sempre há sol e flores, onde a noite é estrelada e a lua tão bela quanto qualquer outro astro nesse vasto universo.
Você vive numa bolha. Não uma pequena onde o espaço é inexistente, mas uma que te acolhe e te livra de todos os problemas do cosmos, que te cerca, que te esconde de todos os males, que te cega em relação ao mundo exterior.
Você vive num mundo totalmente artificial. Inteiramente criado por você. Ou melhor por sua mente.
Você vive um delírio. Você abraça esse ludíbrio como se fosse seu único pertence. E talvez seja. Essa enganação que tua mente criou se tornou sua única realidade. Você aprendeu a viver nesse universo.
Porém este lugar tão árcade onde você se encontra apresenta uma falha que a princípio não é relevante: a abstinência de contato humano.
Quando há pessoas, há diferenças, há intrigas. Porém quando há apenas uma pessoa, uma ideia, uma ideologia, uma moral o conflito se torna, a primeira vista, impossível de ocorrer. No entanto com o passar do tempo você acaba declarando guerra a sua própria mente, aos seus próprios pensamentos. Guerra a solidão.
Os delírios de amor que você vivia consigo mesmo e com o universo que o cercava se tornam um pesadelo, um delírio de perseguição, uma paranóia sem fim.
Você, que sempre gostou tanto da ausência da realidade, nunca quis tê-la de volta tanto quanto agora.
Sua bolha parece inquebrável e cada vez menor. Se tornou impossível escapar daquele lugar. Você foi sufocado por sua própria realidade. Por seu universo paralelo. Pela abstração de seus desejos.
Você, que sempre ouviu que os loucos são os mais felizes nunca almejou tanto a infelicidade.

Vitória Flosi, 3B2

Sinto muito

Eu sinto muito
Por exagerar.
Por pensar
Exaustivamente.

Sinto muito.
Por querer conversar sempre,
ou apenas querer um pouco de atenção,
Por gostar muito de abraços.

Sinto muito
Por falar demais
E as vezes de menos
Por não saber o que falar
Por insistir

Sinto muito.
Sempre sinto muito.
Intensamente
Sem nenhuma contenção.

Sinto muito.
Sinto muito por sentir muito.

Vitória Flosi, 3B2

Vermelho

Raiva.
Ódio.
Tudo remete a vermelho.
Vermelho sangue.
Tudo lembra um assassinato.
E o homicídio?
De quem foi?
De quem lhe causara toda aquela cor?
Não foi um assassinato, perdão.
Um suicídio.

Pois a raiva com todo aquele vermelho intenso mata mais que o amor,
mata mais que a dor.
Fere mais que espada,
mais que ferro quente.
A raiva consome até o último fio de cabelo,
até o último suspiro,
até o último clamor.

É impiedosa e fria.
É sádica e cínica.
Aquele vermelho fervoroso ri enquanto choramos.
Pisa em nós quando precisamos levantar.

Mas a esse vermelho acentuado,
gostaria de acrescentar verde.
O mais vivo dos verdes.
O verde da grama que recobre os pastos árcades do interior,
o verde da mais bela árvore do parque.
O verde que remete a paz.

Pois paz é o que precisamos.
Pois verde é a única cor que neutraliza o feroz vermelho.
Pois paz é o que irá nos curar de nossa ira.
Pois o verde estancará o sangramento.
Pois a paz nos ajuda a raciocinar. Pois o verde nos ajuda a perceber.
A raiva nada mais é que o desperdício de uma bela cor.

Vitória Flosi, 3B2

Morte

Temos medo da morte. Todos? Todos. Mesmo aqueles que mais a almejam. A morte é o símbolo máximo do desconhecido. Tanto o seu durante, quanto o seu depois. Além disso o óbito pode vir de diferentes maneiras, as quais apenas vamos descobrir no ilustre dia de nosso fim. Sobretudo, a morte é inevitável. Não adianta correr dela. Daqui a alguns metros vamos cair e nossa vida será ceifada. Tudo que podemos fazer é implorar para que sintamos pouca ou nenhuma dor. E o depois? Bom, ninguém sabe, nenhum ser humano voltou do além para contar. Talvez tenhamos medo de ficar presos a um eterno nada ou de ir para algum lugar pior que as nossas miseráveis existências.
Temos tanto medo que criamos a ideia de paraíso, purgatório e inferno. Tudo isso baseado nas ações de quem ainda vive. O que vem depois da morte é determinado pelo que a antecede.
O ser humano precisa ter certeza de tudo. De como estará o tempo amanhã, de quanto o dólar vai subir, de quão seguro é realizar tal ação, ou até a certeza de seguir em frente com um relacionamento. O ser humano odeia a incerteza. A palavra “pode”. “Pode dar certo”. Não. Tem que dar certo. Mas em relação a morte, não temos certeza de nada. Ela pode acontecer daqui a 1 minuto, 1 ano ou 10. Não importa. E após ela pode haver um poço eterno de solidão, um jardim do Éden ou O Inferno de Dante.
Mas talvez o mais engraçado em relação a morte seja que só nos preocupamos com ela quando está perto. Talvez esses momentos tão próximos do óbito sejam os mais medonhos de nossas infelizes existências. “Devia ter dito isso”, “devia ter viajado para o Tibet”, “devia ter amado mais”, “devia ter saltado de paraquedas”. “Devia”, talvez ainda haja tempo. Ou talvez não. Nesse segundo caso, morremos sem ter feito o que prometemos ser quando eramos crianças. Prometemos ser felizes. De algum jeito ou de outro. Não necessariamente com essas palavras. Mas de algum jeito prometemos. E morremos sem cumprir a nossa promessa.

Vitória Flosi, 3B2

Manifesto do altruísmo

O mundo é deprimente. É uma grande bola de depressão. Você olha pras pessoas, pra sociedade no geral e tudo que você consegue pensar é que não há esperança. Nem pra você, nem pra sua família, seu vizinho, ou até mesmo para aquele desconhecido do outro lado do mundo. As pessoas são más, egoístas. Tudo que pensam remete a elas. Vivem no seu próprio mundo utópico, sem se preocupar nem com aqueles que os amam e que eles mesmos dizem amar. É como se houvesse uma cortina, que bloqueasse tudo que há de ruim no mundo.

Ao perceber isso, ao perceber o que o mundo realmente é, você começa a olhar o mundo com um ar de ansiedade. O que será do mundo daqui há alguns anos? Viveremos  numa bolha, sem se comunicar com ninguém? Ou nos destruiremos em busca da procura de um “mundo ideal”, diferente para cada um?

Entretanto, tenho que ser sincera quanto ao primeiro parágrafo desse texto. Generalizei a sociedade. Há sempre pessoas que nos dão esperança. Não muitas. Três, quatro, cinco no máximo. Esses seres humanos nos trazem alegria, apenas por serem quem são. Por agirem como agem. Não se limitando a sua própria “bolha”. Pensando nos outros. Nos que amam, nos que gostam, nos que nem conhecem bem. Trazendo (ou pelo menos tentando trazer) o bem estar daqueles que estão ao seu redor. Essas pessoas, acredito eu, serão aquelas que podem mudar o mundo. Afinal, não se pode querer começar pelo fim. Pequenas mudanças, pequenas ações. Um sorriso, um “como vai?”, um “quer ajuda?”, alguns minutos ouvindo alguém desabafar, um abraço. Tudo isso pode mudar o cotidiano de alguém. São essas pequenas ações que, aos poucos, mudam nossa sociedade. Só espero que esta seja altruísta o suficiente para enxergar isso.

Vitória Flosi, 3B2

Não quero envelhecer

Quando digo as pessoas que não quero ficar velha elas me olham com uma cara de espanto, me olham como se eu tivesse ideias radicais. Mas no fundo, eu sei que elas têm essa mesma vontade. Porém, acham impossível. Por um lado, estão certas. Fisiologicamente é impossível ficar jovem para sempre. Entretanto, elas ignoram a mente. Quando digo que quero ser jovem para sempre, quero dizer que quero pensar como um jovem. Mas não aqueles jovens de 70 anos, eu quero pensar como os jovens que no fundo são jovens.

Quero ter sempre o entusiasmo e a motivação de uma pessoa de 20 anos. Quero ter a alegria contagiante de uma criança de 5 anos. Quero amar como se nunca tivesse amado. Quero apreciar música como alguém de 17 anos. Dançar, aproveitar, curtir. Quero sonhar como uma criança de 4 anos. Quero ser uma velhinha de 15 anos. Não quero ficar rabugenta. Quero ter sempre o bom humor de um adolescente apaixonado. Não quero ficar trancada dentro de casa para sempre. Quero sair e me divertir. Afinal, a noite é uma criança e eu também sou.

Vitória Flosi, 3B2