Vagueando

Vi um sol,
Que foi embora.
Vi uma lua,
Que foi encoberta pela nuvem escura.
Via a escuridão.
Vi meus irmãos,
Que no sol,
Andaram vagueando
Em busca de pão,
Na escuridão,
Andam vagueando
Em busca de um lugar, no chão,
Onde passarão a noite,
Sem sonhos, sem emoção,
Apenas esperando, o sol,
Para outra vez vaguearem,
Em busca de pão.

França, inspetor

Estímulo

Em meio a estrofes
procuro versos
Palavras sensatas
que me façam sorrir

Risos discretos
trazendo alegria
Transcendendo meu ego
por onde passar

Que seja arrojado
um pouco sereno
Não importa o tamanho
basta contagiar

Se contagia alegra
Quando espontâneo
conduz o ego
E afasta amarguras
para o riso ecoar.

Adalberto O. Santos, inspetor

Aos Mestres

A humanidade tem três flagelos: a discriminação, a pobreza e a falta de saber.
A discriminação se resolveria com mais amor por seu semelhante.
A pobreza se resolveria com mais doações – e não só de bens materiais – por aqueles que têm mais.
A falta de saber se resolveria com mais apoio e valorização daquele que transmite o saber desde o início da humanidade: o professor.

Inspetor França

Uma imagem

Mil faces…
Você e eu,
Nossas faces
No retrato.
Caras e bocas,
Nossas bocas tão perto,
Sem estarem perto,
De fato.

Mil maneiras
De dizer o seu nome
Sem ninguém me ouvir.
Mil noites
Sonhando com seu sorriso
Antes mesmo de dormir.

E quando acordo
Tento encarar mais um dia
Sem ter você
Em minha frente.
E invento mil faces
Pra disfarçar que lhe quero
De mil maneiras
Diferentes!

Wanderley Rodrigues, inspetor

Ikebana – para Lenira

Brancas, amarelas…
Lá vem a menina,
Espalhando, carinhosa,
O seu perfume florido.
Pequenos botões de estrelas,
Presos em ramos delicados,
Como, delicado é,
O seu sorriso.

Vermelhas, rosadas…
Cada florzinha parece
Sorrir orgulhosa,
Ciente de sua beleza.
Pequenos botões de fada,
Disposto em vasos pequeninos,
Preparados com carinho
E delicadeza.

Brancas, azuis…
Lá vem a menina,
Trazendo nas mãos
Arranjos multicoloridos.
Pequenos botões de luz,
Que bailam delicadamente;
Iluminando rostos contentes
Que olham, embevecidos.

De vários tons e matizes…
Lá vem a menina
Que encanta a todos,
Florindo o ambiente.
Deixando-nos como botões felizes,
Como se fôssemos flores
Nos seus arranjos multicores,
Feitos de gente…

Wanderley Rodrigues, inspetor

Cerúleo

Seus olhos não são azuis,
Mas olhos azuis não me dizem,
Praticamente, nada.
Seus olhos brilham, para mim,
Assim como brilha o dia
No fim de toda madrugada.

São como cristais brilhantes,
Refletindo para o mundo
Com seu brilho peculiar.
Não me preocupo se seus olhos
Não são azuis, como o céu,
Refletido na água do mar.

Pois que navego na correnteza
Das íris que brincam,
Enfeitiçando minha mente.
Pois que me deixo embalar
Com o sorriso que seus olhos
Transmitem tão facilmente.

Seus olhos não são azuis,
Mas posso encontrar o azul,
Quando olho para o céu.
Seus olhos são como estrelas
Brilhando no infinito
Quando o dia escureceu.

São como setas certeiras
Me mostrando o caminho de casa,
Quando perco a direção.
São como rede preguiçosa,
Onde repouso meu olhar cansado
De tanto olhar a imensidão.

Seus olhos não são azuis,
Mas posso encontrar no céu
Todo o azul do qual preciso.
Afinal, o dia fica ainda mais azulado
Quando seu belo olhar amendoado
Se une à beleza
Que há em seu sorriso!

Wanderley Rodrigues, Inspetor

O retrato do início de um novo século

Alguém gritou: “Lá vem o apagão!” A moça solteira (ona) ficou toda empolgada, ela pensou ter ouvido rapagão.

O seu Mané da quitanda encheu-se de esperança: para ele o que foi dito é que eles pagarão (muitos lhe devem fiado).

Os torcedores de um certo time entoaram aos gritos, porque o que ouviram foi: é campeão.

O policial que dormia, por um instante ficou atento; ele entendeu (escutou) “Pega ladrão” (depois virou para o outro lado e continuou a dormir).

O trabalhador suspirou aliviado, nos seus ouvidos o que chegou foi “feriadão” (foi a mensagem do seu subconsciente).

O velho político ficou constrangido, pois falava-se muito em CPI, e ele entendeu corrupção.

O mentiroso contava das suas, explicando sobre sua última visão: “Eu vi Adão” (personagem bíblico).

O desconfiado eleitor, ao ouvir o discurso do seu candidato, entendeu claramente (ou pensou ter entendido): “Nós desviamos (uma maneira sofisticada de dizer roubamos) e vocês (povo eleitor) pagarão”.

Nós, que convivemos muito tempo com PC (aquele), agora já temos o PCC que entendeu ter ouvido que ele merece liberdade de expressão (ou ex-presão).

De repente, o nosso país ficou com essa febre de aumentativo, como se tudo por aqui fosse grande, grandão, igual ao vexame da seleção, que trocou um Leão por Felipão.

Pior foi para os Estados Unidos que, por conta de sua conduta política de indiferença ao sofrimento alheio, ouviram várias explosões.

E lá se foram mais uma vez vários jovens saudáveis para morrer lutando contra uns pobres miseráveis no Afeganistão.

Como podemos mudar esse quadro que nos aperta o coração, será que só com os joelhos no chão, fazendo muita oração? Ou usando a grande arma que estará à nossa disposição, quando estivermos em frente às urnas, no dia da Eleição?

França, inspetor

O professor no passar do tempo

Com o passar dos anos, coisas, pessoas ou profissões ganham ou perdem muito da sua notabilidade. Muito embora algumas dessas profissões possuam importância vital para a composição de uma boa sociedade, o comportamento dessa mesma sociedade faz com que, aos olhos de uma grande maioria, certas profissões pareçam ter mais brilho ou reconhecimento do que outras.

Vejamos a área entretenimento. Há muitos séculos o profissional dessa área tinha que fazer peripécias para agradar reis, rainhas e imperadores, tendo como pagamento apenas refeições ou algumas míseras moedas; hoje os profissionais dessa área são algumas das maiores fortunas do mundo e têm uma projeção social digna de admiração e inveja.

Temos também o caso do professor, aquele que acompanha o desenvolvimento das crianças e dos jovens e tem como profissão ensinar, orientá-los, para que essas crianças e jovens tenham uma boa formação social e profissional.

O professor tem que ter um conhecimento profundo do que ele ensina para que possa passar seus conhecimentos de maneira convicta aos seus aprendizados, e de maneira nenhuma se pode associar a figura de um professor a farras e balbúrdias noturnas, ações tão comuns para profissionais de outras áreas, em que parecem resplandecer.

Cria-se então, um mito da figura do professor: o mestre, aquele que sabe, a fonte de conhecimentos para abrir portar e transpassar barreiras.

A importância do professor na época do império era tanta que se equivalia social e financeiramente a um ministro, pois era o professor que ensinava, dava cultura e saber aos filhos do imperador, aos futuros imperadores.

Os tempos foram passando e muitas mudanças acontecendo, mas a figura e a importância do professor continuava com grande conceito e, no século passado, o professor tinha um grau social e remuneração financeira iguais à de um juiz.

O século XX foi um tempo conturbado, marcado por muitos conflitos bélicos, em que surgiram vários destaques de nações e heróis de combates em guerras, mas no início dele o professor ainda tinha o seu apogeu de importância e reconhecimento social; tinha os seus vencimentos financeiros iguais aos de um coronel.

Hoje, qual a importância de um professor? Não é possível ter escola sem aluno, mas muito menos sem professor. Qual a importância que governo e sociedade dão para o atual professor? Hoje a maioria dos professores da rede pública, que são os estabelecimentos a que a grande população tem acesso, ganha menos que a metade do salário de um soldado. Parabéns aos bobos da corte (hoje atores e comediantes) que fizeram ser reconhecida a importância da profissão, e hoje são milionários. Nada contra o salário do soldado que ainda ganha muito pouco, mas, se não houver uma mudança radical no tratamento direcionado aos profissionais do ensino, essa profissão vai cada vez mais sentir a falência de quantidade e, principalmente, qualidade de seus praticantes; e o mau ensinamento, logicamente, causará um mau aprendizado, e um povo sem instrução é um povo sem rumo e em qualquer seguimento da vida, quando não se tem direção clara a seguir, a possibilidade de seguir o caminho do mal é sempre maior.

Inspetor França

Bosque

A realização do ontem
que hoje me aplaude
e me faz prosseguir,
Com alegria revela-me

Reacendendo a esperança
e a realização do amanhã
que ainda não veio
E que logo há de vir.

No olhar
A expressão é que comove.
Fica feliz quem recebe
Muito mais quem a vê.

Vejo e prossigo,
me dedicando aos outros,
sem olhar para quem;
Esse é meu proceder.

Sigo…
Expelindo palavras,
Espalhando sementes
Para alguém germinar.

Com o resultado,
Semeio árvores e flores,
Para a espécie generosa
Tão logo espalhar..

Adalberto. O. Santos – inspetor

Fim?

Imagem: Hudea Foto: Osman Sagirli

Imagem: Hudea
Foto: Osman Sagirli

Eu me rendo…
Estou cansado dessa violência;
Cansado do homem
Que não sabe o que faz.
Quero minha infância de volta…
Quero de volta o sorriso
Que meu espelho
Não tem visto mais.

Cansei de ter os olhos doloridos
Por tanto secar as lágrimas,
Para poder ver o caminho
Por onde sou levado.
Quero de volta o colo da mãe…
Quero de volta o pai alegre,
Brincando comigo sem medo
De que isso pareça pecado.
Eu me rendo…

Cansei de sentir medo, enquanto
Me apontam uma arma, sem ligar
Para o dano que isso me traz.
Eu me rendo e levanto os braços
Para que me perdoem por eu existir;
Levanto os braços com medo,
Pedindo paz…!

Wanderley J. Rodrigues, inspetor