Que tipo de mulher você é?

Me perguntaram que tipo de mulher eu sou. Sou, às vezes, muitas em apenas uma. Outras vezes, sou um quarto. Um terço. Metade. Às vezes, sou ninguém. Sou zero. Às vezes, sou constante. E, às vezes, sou uma surpresa. Sanidade e, às vezes, loucura. Às vezes, sou inquilina e, outras, hospedeira. Às vezes, sou ele, toda ele. Outras, sou qualquer uma que passar na rua. Às vezes, sussurro e, às vezes, escandalizo. Eu sou as vezes. Cada vez, uma a uma. Às vezes sou eu. Quantas vezes eu quiser. Poder para ser às vezes. Mas só às vezes.

Beatriz Girardi Langella, ex-aluna 2015

E as rosas?

Peguei-as na festa
Presumi que fossem ao lixo
Agora cá estão
Pensei que lindas
Mas nunca fui de rosas
Pelo menos não ainda
Demorei pra acostumar
Com elas ali na berlinda
Da mesa a avolumar
Hora que vi
Dei água as rosas
Abri as pétalas
Deixei-as ao sol
E você pergunta
E quanto as rosas?
Estão quase murchas
Com os tons de rosa
Quase a amarelar
E caindo aos poucos
As rosas foram indo
E indo
Olhei e pensei
Depois de tanto brilho
Quantas rosas caíram ?

Beatriz Langella, 3H2

Todos os comuns

Mia era uma menina comum, sem nada de muito especial. Nem sei o motivo pelo qual a escolhi mas tenho que admitir que foi no uni duni tê, já que há uma infinidade magnífica de pessoas que nem ela. Mia era igual a todas as outras meninas, tinha o cabelo liso, usava todas as roupas da moda. Sua beleza era comum. Usava tudo que tinha comprado na última viagem pra Miami, lugar que, aliás, ela se dirigira para visitar os outlets e aproveitar todo o conhecimento e cultura dos shoppings. Ficou louca quando a forever 21 veio pra cá, marcou presença na inauguração e se orgulhou ao dizer que comprou uma roupa de qualidade ruim por um baixo preço e, ainda sim, se recusa a comprar na marisa. Mas se havia uma coisa que Mia realmente gostava era o facebook, a magia de poder compartilhar tudo. Fazia dedicatórias quase líricas para todas as amigas e família. Quando sofria, compartilhava. Quando amava, compartilhava. Até quando jogava joguinhos, compartilhava. Era comum até na política, se perguntassem do governo ela dizia que o PT era o problema do Brasil, que a Dilma deveria ser deposta e que, embora não apoiasse, sabia que a ditadura militar era melhor. Porém, mudava de assunto logo porque tudo que falava tinha ouvido de alguém e assumia como verdade. Aliás, a internet era o lugar que melhor se enganava, se deixava enganar e depois enganava outras pessoas. Mia era comum, comum até demais e, talvez, esteja, de pouco em pouco, em cada um de nós.

Beatriz Girardi Langella, 3H2

O tempo

Os dois viraram naquela linda cena que todos gostam de chamar de “cena do foi e não olhou pra trás”. Eu fiquei realmente passado, acreditava que os dois eram perfeitos um pro outro. E agora? Bom, eu passaria, passaria para os dois. Com um eu ainda pretendia brincar, passar rápido e depois devagar, traria algumas situações desagradáveis e outras fantásticas, oscilaria entre o sucesso e o fracasso… Com o outro eu não teria tanta liberdade, mesmo se eu quisesse mexer com a vida dele, ele e seu jeito inflexível voltariam ao normal de qualquer jeito. Mas como eu disse eu passei, deixei que os dois ficassem separados por um bom tempo mas os dois eram perfeitos, eram a minha novela favorita.

Logo eu que sempre dei meus jeitinhos pra fazer as pessoas viverem aventuras e mistérios fui logo me encantar com um romance? Mas tudo bem, todos temos nossas fases e nem havia sido a primeira vez em que eu me enfiava numa fase romântica. Desde o começo dos séculos eu venho pregando peças, trapaceando, boicotando e apenas me divertindo com os casais dramáticos. Afinal, você já ouviu falar de algum casal que nunca deu um tempo? Geralmente era só diversão mas eu havia gostado deles, permitido que eles ficassem separados e agora eles teriam que me retribuir o favor.
Sabe como é, as vezes parece que eu volto, como o sol depois da noite e como a lua depois do dia. Eu voltei, o tão esperado dia em que eu voltei chegou. Eu, humildemente, resolvi fazer um encontro bem casual, apenas adicionei o fato de ser dia dos namorados e da rua estar vazia. Depois disso, tudo estava garantido, meu amigo cupido já tinha dito que bastaria um olhar. Decidi, então, chamar um pessoal, uma pizza e o resto seria destino. Aliás, o destino também estava lá.
Quando se encontraram foi assim:
– João?
– Gustavo?
– Quanto tempo.
– É verdade.
Eu já estava todo arrepiado.
–  Quer tomar um café ?
– Pode ser, estou com tempo.
– Eu também.
Em relação a isso, foi só uma mexida de pauzinhos da minha parte.

Beatriz Girardi Langella, 3H2

Quando eu tiver 27 anos

Menina de 17 anos entra num escritório de arquitetura e vai falar diretamente com uma secretária.

Secretária – Bom dia, no que posso ajudar?

Menina – Bom dia, eu queria saber o orçamento pra construir uma vida de 10 anos.

Secretária – Vida?

Menina – É, vida. Eu quero dormir e acordar com 27 anos e até lá quero que tudo esteja pronto. Carreira, casa, dinheiro e namorado. E quero passar numa boa faculdade porque a minha escola é muito cara e meu pai me mataria se eu não passasse numa das melhores. Quero que seja que nem comida congelada que reduz todo o trabalho que é preparar uma refeição para apenas um passo que é usar o microondas.  Quero uma vida bem normal. Com 27 anos eu quero ganhar bem e já ter minha própria casa, se puder ser em outro país eu aceito mas só se vocês fizerem um desconto. Quanto ao namorado não precisa ser um deus grego apenas alguém que seja parecido comigo.

Menina entrega um papel com detalhes da sua personalidade. Atendente parece cada vez mais confusa.

Menina – Quero ter curtido muito a formatura e todas as festas de faculdade mas, ao mesmo tempo, também quero ser muito centrada e focada no trabalho. Enfim, preciso de um orçamento o mais rápido possível porque o ano está passando e daqui a pouco o vestibular chega.

Beatriz Girardi Langella, 3H2