Tradução simultânea

Me conheceu e me disse rélou
E sua roupa exalava ô-di-parfã
E íamos aos bistrôs
E comíamos fuá-grá
E balançávamos ao som dos bítols e dos stones
Nos nait-clãbs e virávamos
martinis e blãdi-méris nos répi-áuers
E ríamos um riso frouxo com as  piadas rasas dos talk shows e
íamos aos blues às sextas-feiras e
íamos às exposições de art-nuvô e fingíamos sorrir
maravilhados

Mas arte pra mim é tarsila e portinari
e só bebo caipirinha e breja
e não há nada como dançar eme-pê-bê
nas baladas da cidade
e me disse: bái-bái?
eu lhe disse: adeus!

E se a língua do amor é universal,
prefiro algum que também fale português

Mário Neto, ex-aluno, 2015

Sem título

Digo-lhes que a tristeza é mãe
de toda literatura
Escreveu o primeiro verso o primeiro homem
(É o homem que escreve o verso
ou os versos que escrevem o Homem?)
por estar triste
ou por estar alegre e temer

que chegasse a tristeza.

Pois se estivesse alegre o homem
todo o tempo, sem o que lhe apagasse
o sorriso da face,
não se poria a fazer versos.
Antes passaria todos os dias e todas as noites
a sorrir
a amar
a correr por aí sem ter aonde ir
E não preso a uma folha de papel em branco
a pensar na vida, que não foi feita
pra ser pensada.

Escrever é remendar a vida com poesia
pra ver se disfarça a tristeza
Ou, pelo menos,
se a deixa mais bonita tão bonita,
que dá gosto de dizer:
Essa daí é tristeza minha!

Escrevo minha tristeza em meus poemas
Mas escrevo na areia da praia
Que é pra água do mar levar embora
E minha tristeza durar não mais
que a cheia da maré.

Mário Neto, 3E1