1o. lugar Concurso Fernando Pessoa: Vitória Lessa Soares – 3H1

Eu sou a febre escrita e transcrita
Sou o frenesi fanático de um formigueiro em fogo.
Sou eu mesma uma metrópole e dentro de mim existem milhões.
Todos caminhando numa constância febril em caminhos descruzados e desconexos que terminam quase sempre sem um fim definido.
E que me importam seus fins?
Os caminhos, percursos, percalços construídos são a verdadeira arte.
Os fins foram, são e serão sempre os mesmos. Os caminhos que traçamos até eles é que mudam, evoluem.
Eu sou a evolução.
Sou quem antes se arrastava e hoje anda erguida.
Sou todo o exagero e a exaltação.
Devo ser lida em voz alta, como um poema de Álvaro de Campos.
Leia alto e para os outros.
Pois quando me leio pra mim, em busca de alguma verdade ou certeza,
o que leio são pedaços perdidos e partidos
Nada respondem, apenas questionam.
Ansiedade, angústia e amargura!
Quero gritar, chorar e fugir de mim.
Quem me dera ter a sorte de nascer sem metafísica.
Como guiar-se em um oceano de si?
Qual será dentro de mim o barco capaz de manter o equilíbrio por aqui?
Talvez devesse me conter mais
Afinal, a vida é efêmera.
Logo não estarei mais aqui e pouco depois já não existirá a língua em que esse poema é escrito.
Aproveitemos o momento.
De que adianta o esforço em registrar todo o filosofar interno, então?
E de que adianta tanto filosofar?
Quanto mais me questiono, mais dúvidas tenho.
Que é divertimento do Olimpo observar as divagações humanas, as voltas que dão sem sair do lugar,
O quão perdidos estão em seu caminho já traçado pelo Fado.
Ficarei aqui, admirando o que vejo.
Tranquila e reservadamente.
Aproveitarei de forma comedida a viagem proporcionada pelo destino.
Sem alçar vôos altos, para reduzir quedas bruscas.
Tirarei desse mínimo, meu máximo.
E me contentarei com o que há de vir, posto que a única certeza que temos
é que o que nos é entregue pela vida, nunca é exatamente o que haveríamos de pedir.
Pois se quiseres saber de mim agora, venha com calma.
Não se apegue, não sabemos por quanto tempo estarei aqui.
Me leia tranqüilamente e aproveite o pouco que tenho. Pois é o máximo, é tudo que sou.
Mais me vale admirar-me com o mundo ou me perder nesse emaranhado de mim?
Não sei por que tanto falo de mim.
Quem sou eu que possa interessar tanto?
Mais: que sei eu de mim mesma?
Sei que sou.
Não sei mais nada.
Não preciso saber mais nada.
O que sei é o que vejo
E vejo o mundo como ele é.
Vejo o mundo ser, apenas
E está bom.
E o que não vejo, não é mundo
E o que vejo é apenas o que vejo.
Não é gancho para me afundar em oceano de reflexões.
Não é metáfora para simbolizar outra coisa
É apenas o que vejo
Tristeza é ser homem e não poder ver as coisas pelo que são, mas pelo que sei.
O que posso saber se construo o saber pelo pensamento e pensamento não é real?
Pensar é não enxergar.
É tentar compensar o que já se basta em si, a visão. É errar.
Penso menos, vejo mais.
Eu sou aquilo que vê e que é vista.
Apenas sou. Sou.
Sou a poeta. Sou fingidora
Escrevi sobre uma pessoa,
traduzi quem achava que era eu
e no fim era outro alguém.
Quem ler pode pensar que me conhece,
mas apenas se enxergou projetada no meu eu-poema.
Eu sou tudo!
Devo ser menos…
Eu apenas sou
Sou o amor pela minha pátria
E sou a vivência da poesia
No fim do dia, sou mais uma Pessoa.

2o. lugar (empate) Concurso Fernando Pessoa: Rafaella Milani Santos – 3H2

Desenho multi-Pessoa

I – esboço primeiro

A pena trêmula na mão do artista hesita, querendo entregar-se. Pondera tirar o chapéu, educado, e sair do recinto. Afinal, que mal faz a consciência da impotência? Saberia viver sem a singularidade desta obra. Faria outros desenhos, compraria tintas, esqueceria-se da covardia. Que é que lhe segurava na cadeira, senão orgulho? Não comentaria sobre o caso com os colegas, e este cliente, seguramente, não o encontraria. É de omissão e mentira que se faz história, afinal.
Mas sua sombra obrigava-o a sentar-se, pesando seus pés. O pulso coçava ansioso, dizendo “rabisca, rabisca”.
Espiou novamente o cliente. Não entendia, não era a aparência o problema. Era humano, nem belo nem feio. Mas aquela troca de olhares rearranjava-lhe os órgãos internos.
Ele sorriu, perguntou se algo lhe incomodava. Quis responder que sim, mas não o fez. Viu nos miúdos olhos escondidos atrás dos óculos um universo. Pouco sabia das constelações, mas sentiu que ali cabiam todos os signos, limpos e claros como nunca foram na cidade. Tão limpos, tão claros, que pareciam poder guiá-lo a vida toda. Se antes queria fugir, agora desejava que aquelas estrelas, dentro daqueles olhos, aprisionassem-no lá, para sempre.
Mas eram olhos humanos, aqueles. Pior ainda, olhos estranhos. Jamais poderia perder-se neles, ainda que desculpava-se na arte, na análise.
A mão exigiu de novo, “rabisca, rabisca”, e ele molhou a ponta da pena na tinta.

Três traços, e fez os olhos.

II – esboço segundo

Todo bom desenhista sabe que a expressão vem do olhar, e que parte do olhar são as sobrancelhas. Seria seu próximo passo por lei, sempre nítidas, sempre certeiras na representação do desfocado.
Preparou a mão, que ainda cobrava catarse, e olhou de novo.
A máxima da expressividade estava ali, na angústia que eram aquelas sobrancelhas. Fazia-se sério, típica pose do retratado, mas a faixa de pelos em cima dos olhos não mente. Fortes, ofendiam-se com a análise demorada. Era como se soubessem da vergonha que quase cometera, de desistir. Como pode, pensou, haver tanta humanidade em simples sobrancelhas? Franzidas diziam muito, e o artista quase se pegou ponderando se seu cliente também perdia o sono, temendo a efemeridade, amando e odiando tão passional, e se também racionalizava o grito. Era desenhista, era missionário da racionalização do abstrato.
Não sabia dizer.
“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?”
Belamente, angústia e misticismo misturavam-se no olhar, tão próximos, complementares tal como propriamente olho e sobrancelha.

Mais três traços, e fez as sobrancelhas.

III- esboço terceiro

Agora sua mão corria mais solta, sem toda ansiedade inicial. Faria três em um tiro só. O nariz, as orelhas e o cabelo.
Disse-lhe que fizesse uma pausa. Queria ver os cabelos em movimento. O cliente tirou o chapéu um instante, indagou sobre o resultado da obra. Dado espaço para um curto diálogo, quis interrogá-lo. Queria saber se combinavam, artista e modelo. Como misturavam-se na obra, queria expor. Ele, visual, e cliente, dos olhos místicos e sobrancelhas niilistas.
Todavia novamente, restringiu-se a conduta social. Mas isso pois perdera o foco novamente naquele homem que mexia tanto consigo.
Era estranho. Se algum novato perguntasse se havia expressividade na orelha, riria, certamente riria. Mas havia algo ali, não era a forma das orelhas, ou o nariz fino ou a cor escura do cabelo que lhe intrigavam.
Não parecia real. Talvez fosse obra de sua sombra, que lhe soltara os pés no esboço primeiro. Talvez fosse a sobra dele, que dialogara com a sua na penumbra. Como podia sentir tanto de orelhas, nariz e cabelo?
Meditou. Culpou as sombras por fazê-lo atrasar ainda mais o desenho.
Cerrou os olhos. Respirou calmo. A velocidade da cidade emudecia-se e a brisa de outono arrepiava os pelos na nuca.
Olfato, audição, respiração e toque. Existiam e apenas existiam. Racionalmente, respiração é troca de gases entre o organismo e o ambiente, mas essencialmente? Não é sentimento, é sensação. Sensação de viver, objetivo de viver. Como pode o homem ter a audácia de organizar sons em cartilha infantil? Que é vida? É angústia maquinária ou é a chuva que vai pingando gélida no topo da cabeça?
Bastava sentir o vento acariciando os cabelos, ouvir o canto dos pássaros e respirar a plenitude, sem pensar.
“O mundo não se fez para pensarmos nele.
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.”

E pela primeira vez, o desenhista, sentiu.

Mais três rabiscos para um belo par de orelhas, um nariz e cabelo.

IV esboço quarto

Por fim a boca, boca que nos torna humanos. Tímida e mínima debaixo dum bigode igualmente miúdo.
Boca que ridiculariza, boca que enaltece. Fala de normas e caos, tudo junto, num emaranhado de palavras. Boca que exprime otimismo e fatalismo. Palavras soltas, amarradas.
As palavras que descrevem e escrevem poesias são as mesmas que nos situam. Somos gente, somos história. Somos a própria comunicação. Há algo mais humano que a boca?
Palavra é memória, palavra é premonição. Racionalização do irracionável, em equilíbrio.
Mordiscados lábios inferiores identificam-nos homens.
Históricos, tais como a própria vida.
“Grande e nobre sempre
Viver simplesmente.”

Rabiscou três vezes e fez a boca.
A mão calou-se por fim.

V – obra finalizada

Ilustrado era finito. Poderia tornar-se novamente sombra. Fragmento de alma, a mão desmontava-se em poeira. Olhares cruzados com o cliente novamente, o artista sabia que era ali, no misticismo cósmico daquele olhar, que seria pleno. Pudera ainda explorar-lhe o corpo todo! O quanto ainda descobriria daquela alma, tão distinta, que lhe pedira, num simples fim de tarde, um desenho? Talvez os pés fossem de monge, cansados de caminhar. Talvez os ombros mostrassem leveza infantil. Não tivera tempo de descobrir.
Sabia, porém, que as mãos eram suas. Mãos que regem o artista, que se machucam no artesanato de todas as filosofias. Era sombra, mas era sombra das mãos. De todas incertezas, sabia ser as mãos.
Era sombra tal como os outros, pedaço que complementa o ser. Esboço, mais precisamente.
Era detalhe, que buscava entender-se, na ausência de si. E na ausência de si, fez mãos que o desenhassem todo, descobrindo que o todo era conjunto.
A obra completa eram eles todos juntos. O desenho de um era a biografia de outro. Entrelaçados, autopsicografados. Teatrais e verdadeiros, na intensidade, na inocência e no passado, unidos nas estrelas.

“E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”

Era Campos, era Caeiro, era Reis, era Pessoa.
Mas principalmente, era Fernando.

2o. lugar (empate) Concurso Fernando Pessoa: Larissa Nitta – 3B2

He(u)terônimos 📚✏️🇵🇹👓
Toque para info do grupo

Fernando Pessoa adicionou Alberto Caeiro ao grupo
Fernando Pessoa adicionou Álvaro de Campos ao grupo
Fernando Pessoa adicionou Ricardo Reis ao grupo

Fernando Pessoa:
Caros amigos! Bem vindos!

Alberto Caeiro:

caeiroA mais bela paisagem de Portugal eh minha aldeia.
Aqui os campos são mais belos, as flores são mais belas e tudo mais.

Álvaro de Campos:
Do que vale toda essa beleza?
São apenas mentiras e falcatruas!
Ela não me traz respostas
Apenas mais dúvidas

Alberto Caeiro:
Esqueça, não pense, não reflita
Todo esse seu pensamento te destrói
De nada serve

Álvaro de Campos:
Quando irei parar?
São apenas perguntas e mais perguntas

Ricardo Reis:
Pelos deuses do Olimpo
Como funciona essa terrível máquina?

Álvaro de Campos:
Terrível? Não há nada de terrível nela!
Olhe o que é capaz de fazer!
Seus chips, softwares, funções
Há apenas prazer em seu uso

Alberto Caeiro:
Prazer? Nem tanto
Prefiro minha natureza
Essas pessoas por aí
Com as cabeças baixas
Esquecem totalmente de olhar o céu

Álvaro de Campos:
De que me vale o céu
Se dentro de mim
Apenas existe escuridão?

Ricardo Reis:
Chega desse exagero todo
Chega de todo esse futurismo
Estou cansado da tecnologia
Espero que tudo vá ao abismada

Álvaro de Campos:
O que?

Ricardo Reis:
Abreu

Alberto de Campos:
O que?

Ricardo Reis:
*ABISMO

Alberto Caeiro:
Ahh

Álvaro de Campos:
Abismo?
O meu coração é um abismo

Alberto Caeiro:
CHEGA DE TODO ESSE NIILISMO
ESSE GRUPO É QUE É ABISMO!

Alberto Caeiro saiu do grupo

Ricardo Reis:
Terrível tecnologia dos infernos
Não quero mais este pesadelo
Também vou me indo adora

Álvaro de Campos:
Hum?

Ricardo Reis:
*AGORA

Ricardo Reis saiu do grupo

Álvaro de Campos:
Sozinho novamente
De nada serve mais este lugar
Adeus

Álvaro de Campos saiu do grupo

Fernando Pessoa:
Ó mar! Ó céu!
Quando conciliarei esses meus distintos eus? 😔😔😔

3o. lugar Concurso Fernando Pessoa: Mário Maximino Neto – 3E1

Eu, heterônimo

Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico me vejo só um bocado de mim (…)
Álvaro de Campos

Leem meus versos por toda Lisboa
Por todo canto falam meu nome
Aos quatro ventos os gritos ecoam
“És gênio! És gênio! És mais do que humano!”
Inquieta, minha alma, pequena que é,
foge dos gritos, se esconde da luz.
 

Que vale ser gênio
e louco também?
Que mérito tenho
eu do que escrevo –
se não sou eu, mas partes de mim?
Minha é a mão que segura a pena
O resto é trabalho de mentes alheias,
de outros que habitam dentro de mim.
 

Sou metonímia incompleta
A parte pelo todo.
Mas o todo em mim é nada
As partes pelo nada.
 

Quisera eu tomar um comboio
e partir de Lisboa
para uma aldeia qualquer,
além do Tejo ou além do Bojador.
Partir de meus conhecidos,
e dos meus Eu desconhecidos,
e deixá-los para trás.
Mas o rio de uma aldeia qualquer
é tão grande quanto o Tejo.
E meu Eu lá seria o mesmo.
Seria, ainda, vários.
Seria, ainda, nada.
 

Quisera eu não ter nascido
heterônimo de meus heterônimos,
nascido uma colcha de retalhos
mal remendados,
nascido vários em um,
nascido Frankestein.