Ânsia

Para.

Senta.

Não fala.

Ânsia cresce dentro de mim…

Quem sabe um dia consigo livrar-me deste sentimento

De lixo

 

“Até onde sua família é sua família?

Se não respeita? Se não te aceita?

Só o que aceita é tua máscara

Máscara que deforma

Que machuca

 

Por que se sujeitar a tal julgamento alheio?

Sim, alheio

Pois nem sequer és conhecido para ser julgado

Só o que mostras é espelho

Em que se acredita por comodidade

 

Respeitar o diferente é tão doloroso e difícil assim?

 

Sabe,

Não quero mais derramar lágrimas suas

Chega desse amor mentiroso!

Amor egoísta

Que poe a própria dor acima de qualquer outra

 

Se quiser ser minha família, aceita sem reclamar

O que quer que eu faça de mim”

 

É….mas no final das contas, não importa o quanto eu nos pense, repense, dispense

 

Mantenho-me quieto atrás de seus pré-conceitos

E minha ânsia sempre volta

Mais forte

 

Verônica Dufrayer, ex-aluna 2017

Irmandade mitomaníaca

As quimeras chegavam ao salão

Híbridos, trocavam seus rostos

Volumosos vestidos

Desmedidas cartolas

Carregavam enigmas

Bestas mitológicas,

De seu arsenal saiam máscaras

Escondiam seus rostos

Nunca as achariam

Uniam-se em circunspecta falsidade

Expiravam falsas verdades

Assim, sincronizavam-se

Decifra-me, ou devoro-te

Devoraram os díspares

Manada comportamental

 

Rebeca Urbano, 3C

Demorei tanto tempo

para admitir

Que eu amava você,

mas não sabia como agir.

 

Quando via você,

meu coração acelerava

Não queria aquilo,

não podia fazer nada.

 

Assim o tempo

tornou-se um inimigo

Aquele contratempo

era um castigo

Mas agora, o problema

já não era mais comigo.

 

Logo desisti,

parei de tentar

E então percebi,

que eu não sabia amar.

 

Joana d’Arc , 7D 

Eu sou Nordestino

Eu sou Maria e Severino

Eu sou guerreiro

Eu sou cangaceiro

Eu sou filho de sol e sal

Eu sou afluente de uma fonte cultural

Eu sou sofredor

Eu supero a dor

Eu me arrisco

Eu conquisto

Eu tenho orgulho das minhas raízes, que me tornam indispensavelmente humano.

Eu tenho orgulho de bater no peito e ser Asa Branca

Eu tenho orgulho de abraçar minha essência e ser eu mesmo.

Sou Xaxado

Ceará

Jorge Amado

Carcará

Suassuna

Iemanjá

Velho Chico

Paraíba

Maranhão

Macunaíma

do Sertão

Maria Bonita

Lampião

ô, Terra Rica!

Mãe do Brasil,

Vê que filho teu não foge à luta

Mesmo sendo tratado como vil

Não desiste ou reluta

Pelo contrário

Mostra que se orgulha

Eu sou Salvador

Eu sou Nordestino

 

Salva, 3E

A vida não anda fácil

A vida não anda fácil

Anda tropeçando, claudicante

A vida caminha molhando os pés nas poças,

esbarrando nas pessoas à frente

vira e mexe para e afaga um cachorrinho que passa.

A vida anda num pé só, a vida dá pulinhos e por pouco não cai

A vida anda dando estrelas, rodopia, rodopia,

rodopia e para. Ficou tonta.

Pronto, passou. Vai voltar a andar.

Mas aí abaixa e pega uma moeda que viu no chão,

e a olha um minuto ou dois e volta a jogá-la no caminho.

 

A vida não anda fácil

e às vezes se mete no caminho dos outros.

Aí a vida anda empurrada,

xingada, chutada pelos cantos.

A vida anda um pouco asmática, não puxa o ar direito

a vida anda meio manca, as juntas ardendo,

e o ciático atacando.

A vida anda gritando, resmungando,

anda falando que cansou de andar.

A vida anda e já faz tempo que não vê uma poça,

um cachorrinho, uma moeda.

A vida anda e quase já não lembra  como dar uma estrela.

A vida anda e já não gira:

culpa da labirintite.

 

A vida não anda fácil, quase já não pula,

parece que os sapatos passaram a grudar no chão

(A vida anda e mal se lembra de quando começou a calçar sapatos).

A vida anda e já não atrapalha ninguém,

a vida anda e passou a empurrar os que ficam pelo caminho

(a esquerda é pra andar, porra!)

A vida anda mas agora anda pra chegar

não anda por andar

anda pra chegar e não chega

A vida não anda fácil

e anda, anda, anda

 

Mario Neto, ex-aluno 2015

Malagma

Devaneios sobre as gengivas

Todo poeta gosta de cantar os olhos.

Na poesia os olhos são como as bundas,

amor nacional, paixão das torcidas.

Nas faixas, a ver:

“Olhos de ressaca”… “olhos negros como a noite

que não tem luar”… “quantos naufrágios nos olhos teus”…

Olhos: preferência dos poetas!

Mas, eu? Eu prefiro as gengivas!

Há algo mais poético que uma gengivinha?

Moldura, coram-se as gengivinhas

num sorriso sincero: protagonizam os sorrisos

mais belos as gengivas…

Mas, veja bem, não falo de qualquer gengiva,

de gengivas pagãs, mas da gengivinha

da moça que conheci na festa…

Para ela entoo o canto solo pelas gengivas.

Inicio-me nesta seita dos poetas que

amam as gengivinhas das musas, das ninfas,

das moças das tardes, das noites, dos cafés…

Recriem-se os quadros! Refaça-se o Louvre!

E pintem! Pintem as gengivas!

 

Esse poema integra a obra Malagma, de Filipe de Gaspari, ex-aluno 2010, publicada pela Editora Paduá em 2017.

Eterno

Eu sei,
Eu vejo,
No espelho,
O que sou:
Uma parte do Cosmo,
Um pouco da Estrela,
Que, com sua essência,
Me criou.

Eu sei,
Eu sinto,
Aqui, dentro
De mim:
A vida
Que pulsa,
O Sopro Divino
Que não tem fim.

Eu sei e me ouço
Como o Verbo
Que, no Universo,
Ecoou.
Eu penso
E existo,
Sou parte d’Aquele
Que me projetou!

Wanderley, inspetor

[Feridas invisíveis]

Meu corpo dói

Não mostra feridas,

Nem arranhões

Ou hematomas

Mas isso é porque

a dor não está na superfície,

Onde tudo é visível, claro

E bonito

É mais interno,

Uma parte mais escura

Que ninguém se atreve a explorar

Nem mesmo perguntar a respeito

Por que será?

Talvez por medo do desconhecido?

Ou pelo muito bem conhecido?

XXY, 2B

Vencedores do Concurso Fernando Pessoa – 2017: primeiro colocado: “Multilateralismo contemporâneo”, Felipe Akio Nakamura, 3E1

É com imenso prazer que, após tantos e maravilhosos textos enviados, conseguimos, tarefa ingrata!, escolher os três vencedores do Concurso Fernando Pessoa, edição de 2017. Parabéns aos vencedores e a todos os participantes (que também serão publicados em breve). Aproveitem a deliciosa leitura.

Equipe Palavrarte e Equipe de Português

Multilateralismo contemporâneo

 

Ó telas de LED azul, ó teclas misteriosas, tec-tec-tec eterno!

Admiração incontrolável às redes invisíveis!

Redes que tanto tentam tecer um triste apego.

Eh-lá-hô aplicativos sugadores de tempo!

Eh-lá-hô capital em movimento!

Eh-lá-hô renovações transparentes!

Máquinas que se encontram nas ruas e nas casas e nas escolas,

Dominando, possuindo, divertindo, iluminando, entretendo,

Fazendo-me um escravo de ninguém.

Por todo lugar e espaço sempre ela está,

Mais possessiva do que uma mulher bela que não se trai,

Que se afastando têm-se uma ânsia eterna!

Vem sentar-se comigo, maçã sem sabores, à beira da torre de Wi-Fi.

Sossegadamente observemos sua grandiosidade e aprendamos

Que o indivíduo nada passa de um elétron entre fios condutores,

Insignificante seguindo o plano do Fado.

Conversemos sem demasiadas emoções e sentimentalismos.

Sem aplicativos, nem jogos, nem ligações que levantam a voz,

Nem contatos, porque se os tivesse a bateria sempre se desgastaria,

E sempre iria ter à escuridão.

Teclar é a eterna racionalidade…

Uma vida plena é vivida na inocência,

E a única inocência é não teclar…

O maníaco é um poeta

Poeta sem certa cara

Que não tem meta concreta

Nem possui mente clara.

 

Felipe Akio Nakamura, 3E1