“Gift”- a realidade do abandono de animais

Ao redor do mundo, há milhões de cães vivendo nas ruas, ou porque foram abandonados, ou porque já nasceram sem lar. Na Holanda, felizmente, todos os cachorros têm onde morar, por conta de medidas restritivas adotadas pelo governo de forma eficiente a evitar o abandono.

Recentemente, a Zoetis, multinacional húngara líder em saúde animal, procurou sensibilizar os espectadores para a questão do abandono de cães, através do poderoso curta-metragem “Gift”. A obra, com duração de cinco minutos, conta com a direção de Zsembuia Zsofia e é estrelada por Bernáth Julia, no papel de Red. Além disso, a participação especial do cão Heather, da Fundação de Proteção Animal de Füsesabony, na Hungria, confere ainda mais realismo e autenticidade à produção.

O enredo do filme é simples e retrata as transformações no cotidiano de uma família após a adoção de Red. As relações, inicialmente harmônicas, caminham para conflitos, revelando as dificuldades e o despreparo da família que fez a adoção. Isso culmina na atitude derradeira da família, que decide pelo abandono da criança. É quando uma nova surpresa ė revelada: a criança, na realidade, foi escolhida para retratar um cão.

Ao comparar o abandono de uma criança ao de um animal, tem-se a grande reflexão do filme, pois fica nítida a crueldade do ato de abandonar. Além disso,  atuação singela da criança como Red confere um tom realista, objetivo e provocador, capaz de atingir diversos públicos. A expressão de tristeza do cão arremata a obra e gera a reflexão sobre a adoção e abandono de animais. Iniciativas como esta são essenciais para caminharmos na direção da realidade holandesa, em que a adoção é um processo de maior consciência e responsabilidade e que vai contra o abandono canino.

Nicole Grossmann, 2B

Vencedores do Concurso Fernando Pessoa – 2017: segundo colocado: “Ilustre Tertúlia em Condições de Brasilidade e Heteronomia”, Mauro Simas Neto, 3E1

É com imenso prazer que, após tantos e maravilhosos textos enviados, conseguimos, tarefa ingrata!, escolher os três vencedores do Concurso Fernando Pessoa, edição de 2017. Parabéns aos vencedores e a todos os participantes (que também serão publicados em breve). Aproveitem a deliciosa leitura.

Equipe Palavrarte e Equipe de Português

Ilustre Tertúlia em Condições de Brasilidade e Heteronomia

Era uma frígida tarde invernal daquele fatídico ano de 1942. Com minhas já desgastadas vestes de viajante tentava em vão escapar da fúria dos elementos. Trovoadas rugiam ao longe e lembravam-me dos canhões que naquele momento deviam castigar terras não tão distantes em nome da futilidade humana. Parei sobre o abrigo de um toldo e por um breve momento direcionei minha vista para a cidade fustigada pela incansável tempestade em um terrível duelo entre civilização e natureza. Lisboa, mesmo sob tão desfavoráveis condições, resplandecia com sua beleza atemporal. Um lugar hostil a princípio às concepções que trazia de minha pátria brasileira, mas que acabei por naturalizar. Portugal, uma nação com um destino tão infeliz, ainda assim era infinitamente afortunada por ser um dos últimos refúgios da destruição que assolava a Europa. Alvo de uma rajada de vento particularmente cortante, voltei ao mundo concreto e nesse momento que avistei um café mais afrente na deserta ruela. Ao aproximar-me a passos largos, pude ler a convidativa inscrição: “A Brazileira”. Meus pensamentos voltaram a meus tempos de infância na enevoada São Paulo, antes de eu decidir aventurar-me por terras além-mar. Muito mudou desde então. A solitária cidade que havia conhecido agora se movia freneticamente sob os ritmos da modernidade.  Getúlio Vargas governava o amado país com mão de ferro, não muito diferente do ditador português com quem me habituara. Triste época para homens que ansiavam pela liberdade! Decidi por buscar abrigo naquele estabelecimento que trazia tantas memórias boas. Ao adentrar, logo o notei por um requintado café, lugar de reunião de notáveis, e não hesitei em ajuntar-me a um cavalheiro de faustas vestimentas que desfrutava a bebida de minha terra no imponente balcão.                                                                                                                                             – Minhas mais nobres saudações, egrégio senhor! – ele prontamente me saudou – Zeus está insaciável em seu furor celeste: Foste vítima desse caos elementar, eu infelizmente vejo.                                                                                                                    -De fato, ilustre! – respondi. Notava vagamente na fraca iluminação um semblante altivo e que estranhamente inspirava serenidade – O clima hostil não me poupou! Enquanto tirava meu ensopado sobretudo, introduzi-me ao desconhecido.  Ele logo me reconheceu como um habitante do Novo Mundo.                                                   – O onipotente Fado conduz-nos, meras folhas ao vento, a essas inexplicáveis coincidências. Aqui estou eu, bebendo o fruto do labor de vosso povo no café que leva o nome de vossa terra.                                                                                                                          -E ainda assim, indivíduos tão diferentes, unidos pelo Destino como dizes, conseguem interagir positivamente, confeccionar laços fraternais, identificar-se como seres humanos! Creio que esse seja o maior bem provindo da civilização humana, da vida em sociedade!                                                                                                                          Embebido na fascinante conversa, não notei um vulto que chegava ao balcão e que não tardou em pronunciar-se:                                                                                                                   -Sim, a civilização… Já a exaltei outrora, a beleza moderna, a eficiência               fabril, a supremacia das máquinas! Tudo em vão… A real questão nunca resolvi. A verdade é que não consigo sequer encontrar o meu verdadeiro eu, pior, sou um insignificante grão de areia em uma praia inteira… E pensando nisso, não vivo.                                                -A triste realidade humana é essa, meu caro – afirmou meu primeiro interlocutor – somos seres pensantes, mas a solução para isso é fácil: basta focarmos no presente, nos prazeres momentâneos, que a vida não é eterna. Filosofes sobre esses assuntos e desassossegar-te-ás inutilmente. Contenhas esses impulsos pensantes, aceites o Fado e vivas cada instante como se fosse o último.                    -Um complicado problema! – conclui humildemente e, enquanto cumprimentava o novo personagem, continuei – Ilustre, quando me referi à civilização estava pensando na ideia de coletividade, mas a sua perspectiva tecnológica também é bem discutível. É nela, pois, que se encaixa o horror da guerra atual!                             – O resultado conspícuo do desequilíbrio que reina no pensamento dos homens nesses tristes tempos. É no passado, época de glória e prosperidade, que devemos nos espelhar. – retrucou o homem com quem havia inicialmente me encontrado.                              – Ricardo, não posso admitir que o passado seja a solução. A humanidade sempre sofreu com os conflitos bélicos. – asseverou o segundo cavalheiro- A tecnologia pode os ter feito mais destrutivos, mas não é a causa deles continuarem a nos atormentar!                                                                                                                                      – Creio que a única solução seja uma nova mentalidade mundial que preze pela paz, não há outra forma! – exclamei exaltado.                                                                                      Nesse derradeiro momento, um terceiro homem vestido humildemente aproximou-se de nós. Com um quê de ares bucólicos, lembrava-me os poetas antigos, um árcade perdido, quem sabe? Mas o mais intrigante era seu ar de sabedoria, alheio a tudo que já havia visto na civilização humana. Ó céus, era impossível rotular tal homem! Ele transcendia toda e qualquer definição de homem moderno. Oras, estava diante do primordial, do ser humano como veio ao mundo, sem preceitos ou filosofias!           – Mestre, meu mestre! Ilumine-nos em nosso dilema! Sobre guerra e paz, o que fazer?- indagou o homem vítima da modernidade                                                                          – Meus amigos, não há nada o que fazer a não ser fazer nada. A guerra é resultado do pensar. Sem o pensar sobre ela, não há guerra.  Se os homens soubessem a apenas ver e ouvir, todos os conflitos cessariam. Discussões sobre a paz mundial só têm efeito reverso, só essa sabedoria bastaria. É disso que necessitamos: não de infrutíferas reflexões, mas sim de um pensar em não pensar.                                                  Pasmo com uma resposta tão simples, mas tão verdadeira, finalmente me apercebi que a chuva já havia abrandado e que já eram horas de seguir para meu destino original. Despedi-me das peculiares figuras e ausentei-me sem maiores reflexões. Foram só anos mais tarde que lembrando do memorável ocorrido notei o agora óbvio. Oras, eram os heterônimos do ecúmeno e inesquecível mestre literário, Fernando Pessoa! Inexplicável do inexplicável! Com essa eternal dúvida, só me resta perpetuar esse conto, quer seja fruto da minha imaginação ou joguete do Destino…

Mauro Simas Neto, 3E1

A hipóteses da descendência de Narciso

Muito se fala no mito de Narciso. Na narrativa mítica, esse belo jovem se afoga em um lago em uma tentativa impossível de alcançar a sua imagem refletida na água. O homo sapiens, principalmente na contemporaneidade, aparenta trilhar o mesmo caminho de Narciso, induzindo à elaboração de duas questões: poderiam os humanos ser descendentes de Narciso e conseguirão eles chegar ao seu nível de auto-idolatria?

Uma analogia pode ser feita entre Narciso e os seres humanos: ao passo que Narciso admira a sua imagem refletida na água, os homens contemplam suas imagens refletidas na sociedade. Essa última reflexão pode ser também chamada de “julgamento público” e é baseada em padrões estabelecidos pela sociedade, como preconceitos. Tal diferença no agente refletor é o suficiente para tornar o amor próprio em desprezo próprio, o que acontece porque a adequação do caráter e corpo de um indivíduo ao que é considerado ideal nem sempre é possível, ou frustra seus desejos pessoais e lhe provoca a insanidade. É possível concluir, portanto, que o gene da auto-idolatria de Narciso teve seu fenótipo alterado pelo meio (e ironicamente para o oposto).

Sendo a auto-idolatria substituída pelo desprezo próprio, o homo sapiens inicia sua renovação: a reconstrução de seu corpo e de sua personalidade. O convencional para os homens jovens é usar anabolizantes e adquirir tatuagens, enquanto para as mulheres é a aplicação e silicone para aumentar o seio, a lipoaspiração e o intenso uso diário de maquiagem. Nota-se que todas as mudanças visam a intensificar (Obs.: visam, nesse caso, é VTI e exige preposição) as características sexuais secundárias, pois contentar-se com a dose hormonal natural de seu próprio organismo é um “luxo”. Há também um terceiro tipo: os hipócritas. Esses são aqueles que procuram se afastar o máximo possível dos padrões estabelecidos, supostamente uma forma de mostrar que a opinião pública lhes é desprezível, e, então, saem à rua ansiosos pela reação do público.

Narciso chora em seu túmulo aquático. Chora pelos humanos, seus descendentes, que possuem a capacidade de converter todo o amor, inclusive aquele a si mesmos, em ódio. Nunca um parente lhe pareceu tão distante.

Adriano Nishinari, 3B1

Conto do metrô

Na Sé, Socorro acabou de entrar no vagão. Agora, já não resta mais nenhuma baldeação até seu destino e a mulher já pode descansar. Suas fortes panturrilhas doem por conta das horas de trabalho na faxina e ter achado aquele assento livre quase fez valer a pena seu atraso para sair do trabalho. A xepa já está quase no fim e os vagões ainda quase cheios. Socorro saca seu celular, não por estar entediada pois sempre foi muito paciente, mas pela simples necessidade de matar as saudades de seus meninos. Faz 12 horas que deixou o mais novo na escola. Enquanto revisita as fotos dos filhos, tira os olhos do celular para dar uma pequena olhada na linda jovem sentada ao seu lado, a menina não demonstra expressão nenhuma, parece estar imersa no mundo de seu fone de ouvido. Vira os olhos para o velho de chapéu na sua frente e este também está ausente e imóvel. Em meio a calmaria do vagão, Socorro passa os olhos pelos seus passageiros e repara que estão todos parados. Extremamente parados. A mulher levanta lentamente e caminha entre aqueles corpos, todos paralisados, congelados em suas posições, uns diante do celular, outros de olhos fechados ou contemplando o teto. Socorro cutuca as pessoas e de ninguém recebe resposta. Senhor? Senhora? Nem piscar, piscam. Seus pés e mãos estão firmes no chão e nas barras de metal. Antes de gritar com alguém, a faxineira percebe que desde que entrou no vagão, o trem não parou em nenhuma estação. Tomara que ele pare pelo menos na sua, já que é a última. Socorro olha para o relógio do vagão e este ainda funciona normalmente. Ela volta para os bonecos diante de si e toca em seus corpos, buscando sinais de vida. Suas peles ainda estão quentes e seus corações ainda batem. Socorro verifica se o seu ainda funciona e fica aliviada por um momento. Ela fita o relógio e vê os minutos passarem. 20. 40. Só consegue pensar nos seus filhos. O túnel já não tem mais fim e o trem já não tem mais destino. Ela tenta ver algo pela janela, mas só consegue enxergar as paredes cinza escuro de concreto passando rapidamente pelos seus olhos. Meu Senhor Jesus Cristo! Seu grito é o primeiro som a ser escutado além do ruído do trem, do atrito das rodas com os trilhos e do chacoalhar das carcaças dos vagões. O barulho constante vai aumentando de volume e tomando conta dos ouvidos da mulher. Ela não ouve mais nem sua própria voz. Socorro lembra novamente do desamparo de seus filhos. O que farão sem ela? Como conseguirão dinheiro? Não queria que Jonas começasse a trabalhar tão cedo. A mulher olha para o relógio/calendário nos painéis do vagão e vê passar um dia. Dois. Um mês. Dois. O trem continua em seu trajeto infinito, correndo sem rumo até a eternidade. Socorro já não sente nada, nem mais raiva de seus companheiros por não respondê-la, nem mais o calor de seu próprio corpo, nem mais o bater de seu coração, nem mais saudade de seus meninos. E sem, em nenhum momento, se questionar do porquê de tudo isso, Socorro segue de Metrô a lugar nenhum.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)

Rococó

Gostaria de escrever sobre você com linguagem mais parnasiana que a do próprio Olavo Bilac;
usar de vocábulos e conjugações dignos de deixar poetas árcades de queixo caído; palavras tão rebuscada quanto as utilizadas por trovadores, que já cantigavam coisas dificílimas muito antes mesmo de sermos forçados a substituir Tupã por Jesus Cristo.
Fazer comparações inimagináveis do seu olhar com os elementos do universo, e estas se encaixam perfeitamente das formas mais lindas, fazendo derreter o coração de qualquer leitor, e desejar que por ele, alguém também escreva tais sentimentalidades sobre a maneira com que movem seus olhos.
Mas sou apenas poetisa de classe media alta que nunca passou nenhum sufoco na vida, que nunca se deslumbrou com palavreado complicado, nem nunca soube se expressar por meio de escrita de enfeitamento, muito menos trocar você pela vossa senhoria.

Isabela Avelar, 3H2

Para uma menina triste chorando

“Poesia é brincar com as palavras” piada também, é fácil, é…?

Por que a galinha atravessou a rua? Não.

Talvez um trocadilho…
Posso forçar um milho…?
Falhei.

O que eu quero de você? Só rir
sorrir.
Clichê.

A verdade é que minha piada chega a ser uma piada ruim
Pois nem ela pode dar graça
a toda sua graciosidade

Humor
um ’mor
hmm, amor?

Pedro D’Angelo, 3E1

Noites em claro

Eu não sei quem definiu que o ser humano deveria dormir um mínimo de oito horas por noite, não há ninguém com a mente vazia o bastante pra dormir por tanto tempo, eu por exemplo, faço parte do grupo daqueles que mal conseguem dormir. Veja só, os dias podem ser lindos, céu azul irradiante e calentador (ou cinza deprimente, o que você preferir) mas não há nada que me deixe sem fôlego como as noites de lua cheia, ou a infinidade de estrelas no céu, e o fato que elas nem estão mais lá, uma vez que a luz viaja devagar demais e nos impede de ver o que realmente ocorre nesse universo. Nós, seres minúsculos, vivendo em uma mistura gigantesca de água e terra, flutuando em zero gravidade, girando por todo sempre em volta de uma chama eterna, até o planeta está preso à uma rotina. O ponto é, o mundo é grande demais pra que percamos tempo dormindo oito horas por noite, nossa cabeça é constantemente bombardeada com quantidades enormes de ideias efêmeras, se não forem colocadas no papel rápido o bastante, são logo facilmente descartadas e mandadas para o limbo, onde nunca mais serão tocadas. Se eu estivesse dormindo este texto não estaria aqui, nem estariam todos os meus planos pra salvar os seres vivos e a humanidade, que porém, vou esquecer nos próximos cinco segundos.

Isabela Avelar, 3H2

Livros da Flip 2016 na Biblioteca do Band

Na Biblioteca, exposição das obras adquiridas na Flip 2016.

Na Biblioteca, exposição das obras adquiridas na Flip 2016.

Da Flip 2016, edição que homenageou a poeta Ana Cristina César, as professoras Cátia, Lenira e Melissa trouxeram vários livros que agora integram o acervo da biblioteca do Band. Entre eles estão obras da e sobre a homenageada, como Poética e Inconfissões (Fotobiografia de Ana Cristina César) e de outros escritores, nacionais, como Rol do poeta Armando Freitas Filho, que conviveu com a escritora, e internacionais, como Vozes de Tchernóbil, da ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura 2015, Svetlana Aleksiévitch.

Além de prosa e poesia, há também obras de pesquisa e reflexão, como Redes ou paredes – A escola em tempos de dispersão, da ensaísta Paula Sibila. Algumas das obras foram carinhosamente autografadas para os alunos do Bandeirantes, como os chamados “livrinhos” das poetas que compuseram a primeira mesa, A teus pés (título de uma obra da homenageada): Annita Costa Malufe (Ensaio para casa vazia), Laura Liuzzi (Coisas) e Marília Garcia (Paris não tem centro).

Veja a exposição das obras na biblioteca, consulte a sinopse dos livros no site da biblioteca e escolha sua leitura!

IMG-20160630-WA0011 IMG-20160630-WA0015 IMG-20160630-WA0014

Professora Lenira, as poetas e os livrinhos

Professora Lenira, as poetas e os livrinhos

Esquecimento

Gosto muito de ti e te odeio ao mesmo tempo. Queria estar ao seu lado e o mais longe possível. Queria passar horas conversando com você, mas se te encontrasse agora não abriria a boca. A verdade é não sou boa de esquecer. Não consigo esquecer. Quanto mais tento, mais lembro. Talvez devesse ser uma coisa natural, mas eu queria poder forçá-la. Queria esquecer tão facilmente quanto fui esquecida. Queria esquecer pra nunca mais lembrar. Queria esquecer que se me perguntassem quem você era eu não saberia responder. Queria esquecer da sua face. Queria esquecer que um dia alguém te apresentou pra mim. Queria esquecer que um dia começamos a conversar. Queria que todas aquelas marcas que você deixou em mim fossem apagadas. Eu quero esquecer mas fico lembrando das nossas conversas que eu só queria apagar da minha mente. Eu quero esquecer mas lembro dos abraços. Eu quero esquecer mas lembro das risadas. Quero que tudo isso caia no esquecimento. Quero que isso caia num buraco tão profundo quanto o poço em que cai.

Vitória Flosi, ex-aluna (2015)

A Grande Besta

… e pela sua boca, começamos a adentrar A Grande Besta; eu e mais dois bravos companheiros, munidos apenas de uma simples tocha.

Sua língua era de um cinza escuro, feito pixe ainda pouco seco, que grudava um pouco em nossos sapatos, mas este era o menor de nossos problemas. Era possível sentir que Ela cuspia uma leve fumaça, daquelas que de primeira não causa efeito nenhum, mas que aos poucos consome o corpo em mal estar e falta de ar.

Durante todo o percurso, a Besta rugia. Nada muito alto, era como um ronronar sem fim, um ruido de atrito constante. Era um som dificil de explicar – admito eu – quase como se Seu corpo inteiro vibrasse e fosse possível ouvir o leve, porém infinito, movimento de suas partículas.

Dentro da Besta não havia silêncio.

Ao entrarmos pela boca de Seu estômago, a fumaça já havia tomado conta de nossos pulmões e em meio a nossa caminhada, que se tornava cada vez mais lenta, já conseguíamos ver as pessoas devoradas por Ela, loucos, órfãos e mendigos. Porém, quanto mais adentrávamos aquela fera, mais conseguíamos ver as pessoas de que Ela realmente se alimentava, ver a energia de suas vidas, de seus trabalhos e atividades que, sugadas por Ela, mantinham-Lhe viva.

Finalmente, ao chegarmos nas tripas daquele gigante monstro de pedra podíamos ver de onde vinha toda aquela fumaça. Era da labuta incessante, da ganância insaciável do Homem, possuindo tudo, feito buraco negro, e somadas ao seu egoísmo, os sucumbia, os transformando em escravos que fomentavam sem parar as fornalhas do consumo desenfreado. Todo esse desespero, para quando o serviço acabar e suas vidas perderem utilidade, os miseráveis serem digeridos por essa assustadora Besta chamada São Paulo.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)