A Grande Besta

… e pela sua boca, começamos a adentrar A Grande Besta; eu e mais dois bravos companheiros, munidos apenas de uma simples tocha.

Sua língua era de um cinza escuro, feito pixe ainda pouco seco, que grudava um pouco em nossos sapatos, mas este era o menor de nossos problemas. Era possível sentir que Ela cuspia uma leve fumaça, daquelas que de primeira não causa efeito nenhum, mas que aos poucos consome o corpo em mal estar e falta de ar.

Durante todo o percurso, a Besta rugia. Nada muito alto, era como um ronronar sem fim, um ruido de atrito constante. Era um som dificil de explicar – admito eu – quase como se Seu corpo inteiro vibrasse e fosse possível ouvir o leve, porém infinito, movimento de suas partículas.

Dentro da Besta não havia silêncio.

Ao entrarmos pela boca de Seu estômago, a fumaça já havia tomado conta de nossos pulmões e em meio a nossa caminhada, que se tornava cada vez mais lenta, já conseguíamos ver as pessoas devoradas por Ela, loucos, órfãos e mendigos. Porém, quanto mais adentrávamos aquela fera, mais conseguíamos ver as pessoas de que Ela realmente se alimentava, ver a energia de suas vidas, de seus trabalhos e atividades que, sugadas por Ela, mantinham-Lhe viva.

Finalmente, ao chegarmos nas tripas daquele gigante monstro de pedra podíamos ver de onde vinha toda aquela fumaça. Era da labuta incessante, da ganância insaciável do Homem, possuindo tudo, feito buraco negro, e somadas ao seu egoísmo, os sucumbia, os transformando em escravos que fomentavam sem parar as fornalhas do consumo desenfreado. Todo esse desespero, para quando o serviço acabar e suas vidas perderem utilidade, os miseráveis serem digeridos por essa assustadora Besta chamada São Paulo.

Tomás Fernandes, ex-aluno (2015)

A fábula de Pedro Guerra

Tempos atrás, nos confins das pradarias do Rio Grande do Sul, nasceu uma criança fugaz e promissora, que já em seus primeiros anos de vida demonstrara uma determinação impressionante em se tornar rico, amado e pai de uma grande familia. Porém, mal sabia ele que, como todos os homens, estava condenado às ironias do Destino.

Pedro Guerra, filho de Antonio Carlos Guerra e Tânia Guerra, sempre se destacou mais que sua irmã mais nova, Terezinha Guerra, demonstrando maturidade e uma coleção de princípios impressionante. Com 13 anos colocou seu primeiro cigarro de palha na boca e dois anos depois já tomava conta de uma pequena plantação de tabaco em nome de seu pai. Aos 17, comprou esta mesma plantação, com o dinheiro arrecadado de seus bicos como marceneiro, escrivão judiciário e segurança noturno. Em poucos verões, após a morte de seu pai, Pedro fez de sua fazenda uma das maiores e mais rentáveis fazendas de tabaco gaúchas, para onde se mudou com sua família.

Pedro Guerra conseguia de tudo, menos uma alma gêmea. Já tinha se deitado com todas as belas gurias da região, mas a nenhuma delas se apegava. Impaciente, o rapaz foi a uma vidente para saber se estava perto de encontrar sua grande paixão. Porém, a velha nada falou sobre amor, apenas disse a Pedro que alguém de sua fazenda iria matá-lo.

A partir daí, o jovem, crente dos fenômenos paranormais, passava noites em claro temendo que lhe tirassem a vida enquanto dormia. Mandou instalar na porta e janelas de seu quarto as melhores trancas da região, que só abriam com apenas uma única chave, protegida em volta do pescoço do próprio Guerra. Mas a paranóia não parou por aí.

Ao se engasgar com um pedaço de cenoura, Pedro acusou sua mãe, que cozinhava para ele desde criança, de tentar envenená-lo e expulsou a coitada da fazenda. Meses depois, ao ver Terezinha se engraçando com um dos jovens empregados da plantação, Zé Carlos(Zeca), sem pestanejar demitiu o rapaz. Guerra desconfiava que este e sua irmã iriam se unir para matá-lo e tomar posse de suas propriedades. Quando Terezinha se pronunciou contra as atitudes do irmão, também foi expulsa. Nada conseguia parar Pedro Guerra.

O jovem promissor agora já era um velho arrogante, já tinha perdido muito da grandeza de sua fazenda. Devido à sua desconfiança, a maioria dos funcionários tinha deixado seus trabalhos e os que faltavam estavam a caminho de fazê-lo.

Pedro Guerra morreu sozinho, sentado na sua varanda com um cigarro de palha ainda aceso na mão. Causa da morte: Câncer de laringe.

Tomás Fernandes, 3H2

A Maravilhosa Cegueira do Homem Diante do Mundo Sem Significado

SÓCRATES: Jovem Platão, você conhece a história de Édipo?

PLATÃO: Não mestre.

SÓCRATES: Édipo foi ao Oráculo de Delfos, que previu que o jovem mataria o seu pai e casaria com sua mãe. Então, sem pestanejar, Édipo cortou a garganta de seu pai a sangue frio e forçou sua mãe a se casar com ele.

PLATÃO: Pelas barbas de Zeus! Mas por que ele fez isso?!

SÓCRATES: Ora, pois esse mesmo Oráculo disse que ele ganharia na loteria.

Tomás Fernandes, 3H2