Vitória perdida

e é sozinho em meu quarto

sob o calor das cobertas

que no escuro da noite eles vêm

aqueles que atormentam o sono

e adiam a alvorada

 

mas nenhum se compara a ela

que no meu peito se pendura

e torna o essencial para a vida

em um incômodo fardo pulsante

 

e seu peso me força a reviver

as lembranças inexistentes

de um universo paralelo

onde o sono não tarda a vir

 

e com sua indiferença dilacera

todo meu raciocínio para que assim

possa reclamar posse sobre mim

e com corpo e mente tomados enfim

me resta a derrota, meu triste fim

 

fadado a mais uma noite

sonhando acordado

vivo este pesadelo

 

enquanto ela dorme tranquila

inconsciente da sua conquista,

sua vitória perdida

 

 

Fábio Pontes Araújo, ex-aluno, 2009

1o. lugar Concurso Fernando Pessoa: Vitória Lessa Soares – 3H1

Eu sou a febre escrita e transcrita
Sou o frenesi fanático de um formigueiro em fogo.
Sou eu mesma uma metrópole e dentro de mim existem milhões.
Todos caminhando numa constância febril em caminhos descruzados e desconexos que terminam quase sempre sem um fim definido.
E que me importam seus fins?
Os caminhos, percursos, percalços construídos são a verdadeira arte.
Os fins foram, são e serão sempre os mesmos. Os caminhos que traçamos até eles é que mudam, evoluem.
Eu sou a evolução.
Sou quem antes se arrastava e hoje anda erguida.
Sou todo o exagero e a exaltação.
Devo ser lida em voz alta, como um poema de Álvaro de Campos.
Leia alto e para os outros.
Pois quando me leio pra mim, em busca de alguma verdade ou certeza,
o que leio são pedaços perdidos e partidos
Nada respondem, apenas questionam.
Ansiedade, angústia e amargura!
Quero gritar, chorar e fugir de mim.
Quem me dera ter a sorte de nascer sem metafísica.
Como guiar-se em um oceano de si?
Qual será dentro de mim o barco capaz de manter o equilíbrio por aqui?
Talvez devesse me conter mais
Afinal, a vida é efêmera.
Logo não estarei mais aqui e pouco depois já não existirá a língua em que esse poema é escrito.
Aproveitemos o momento.
De que adianta o esforço em registrar todo o filosofar interno, então?
E de que adianta tanto filosofar?
Quanto mais me questiono, mais dúvidas tenho.
Que é divertimento do Olimpo observar as divagações humanas, as voltas que dão sem sair do lugar,
O quão perdidos estão em seu caminho já traçado pelo Fado.
Ficarei aqui, admirando o que vejo.
Tranquila e reservadamente.
Aproveitarei de forma comedida a viagem proporcionada pelo destino.
Sem alçar vôos altos, para reduzir quedas bruscas.
Tirarei desse mínimo, meu máximo.
E me contentarei com o que há de vir, posto que a única certeza que temos
é que o que nos é entregue pela vida, nunca é exatamente o que haveríamos de pedir.
Pois se quiseres saber de mim agora, venha com calma.
Não se apegue, não sabemos por quanto tempo estarei aqui.
Me leia tranqüilamente e aproveite o pouco que tenho. Pois é o máximo, é tudo que sou.
Mais me vale admirar-me com o mundo ou me perder nesse emaranhado de mim?
Não sei por que tanto falo de mim.
Quem sou eu que possa interessar tanto?
Mais: que sei eu de mim mesma?
Sei que sou.
Não sei mais nada.
Não preciso saber mais nada.
O que sei é o que vejo
E vejo o mundo como ele é.
Vejo o mundo ser, apenas
E está bom.
E o que não vejo, não é mundo
E o que vejo é apenas o que vejo.
Não é gancho para me afundar em oceano de reflexões.
Não é metáfora para simbolizar outra coisa
É apenas o que vejo
Tristeza é ser homem e não poder ver as coisas pelo que são, mas pelo que sei.
O que posso saber se construo o saber pelo pensamento e pensamento não é real?
Pensar é não enxergar.
É tentar compensar o que já se basta em si, a visão. É errar.
Penso menos, vejo mais.
Eu sou aquilo que vê e que é vista.
Apenas sou. Sou.
Sou a poeta. Sou fingidora
Escrevi sobre uma pessoa,
traduzi quem achava que era eu
e no fim era outro alguém.
Quem ler pode pensar que me conhece,
mas apenas se enxergou projetada no meu eu-poema.
Eu sou tudo!
Devo ser menos…
Eu apenas sou
Sou o amor pela minha pátria
E sou a vivência da poesia
No fim do dia, sou mais uma Pessoa.

Manifesto do altruísmo

O mundo é deprimente. É uma grande bola de depressão. Você olha pras pessoas, pra sociedade no geral e tudo que você consegue pensar é que não há esperança. Nem pra você, nem pra sua família, seu vizinho, ou até mesmo para aquele desconhecido do outro lado do mundo. As pessoas são más, egoístas. Tudo que pensam remete a elas. Vivem no seu próprio mundo utópico, sem se preocupar nem com aqueles que os amam e que eles mesmos dizem amar. É como se houvesse uma cortina, que bloqueasse tudo que há de ruim no mundo.

Ao perceber isso, ao perceber o que o mundo realmente é, você começa a olhar o mundo com um ar de ansiedade. O que será do mundo daqui há alguns anos? Viveremos  numa bolha, sem se comunicar com ninguém? Ou nos destruiremos em busca da procura de um “mundo ideal”, diferente para cada um?

Entretanto, tenho que ser sincera quanto ao primeiro parágrafo desse texto. Generalizei a sociedade. Há sempre pessoas que nos dão esperança. Não muitas. Três, quatro, cinco no máximo. Esses seres humanos nos trazem alegria, apenas por serem quem são. Por agirem como agem. Não se limitando a sua própria “bolha”. Pensando nos outros. Nos que amam, nos que gostam, nos que nem conhecem bem. Trazendo (ou pelo menos tentando trazer) o bem estar daqueles que estão ao seu redor. Essas pessoas, acredito eu, serão aquelas que podem mudar o mundo. Afinal, não se pode querer começar pelo fim. Pequenas mudanças, pequenas ações. Um sorriso, um “como vai?”, um “quer ajuda?”, alguns minutos ouvindo alguém desabafar, um abraço. Tudo isso pode mudar o cotidiano de alguém. São essas pequenas ações que, aos poucos, mudam nossa sociedade. Só espero que esta seja altruísta o suficiente para enxergar isso.

Vitória Flosi, 3B2